sexta-feira, maio 27, 2005

A porteira (2)

Resolvi contar toda a minha história. Quero recomeçar a minha vida, nesta nova casa, como se tivesse renascido com a minha filha. Preciso de deixar tudo para trás, lavar a minha vida...
Quando chegámos ao Algarve, eu e o Quim, instalámo-nos num pequeno apartamento e, começámos a frequentar discotecas, todas as noites. Ele comprava-me roupa com que, a principio, me sentia esquisita. As saias os tops, as calças...tudo muito curto, justo e brilhante. Depressa comecei a notar que os homens me olhavam de forma descarada. Bebíamos e dançávamos toda a noite para no dia seguinte dormirmos toda a manhã ou ir para a praia apanhar sol. Parecia-me perfeito aquele tipo de vida... até aquela noite em que o "amigo" do Quim nos acompanhou a casa... A partir daí rara era a noite em que não aparecia ou "amigo" novo ou antigo (às vezes mais do que um)... Se as coisas corriam mal, e voltávamos sozinhos, batia-me e dizia as piores coisas... Quando as marcas, no meu corpo, revelavam indícios dessas tareias, não saíamos durante dias, pedia desculpa, culpava as bebedeiras e, tratava-me como uma princesa, (ele sabia ser encantador!)
Um dia, em que tinhamos voltado com mais um dos seus "amigos". reparei que não havia preservativos também não havia dinheiro, por isso, resolvi arriscar. Quando descobri que tinha engravidado, escondi o facto enquanto me foi possivel (tinha medo da sua reacção). No dia em que soube bateu-me, novamente, e arrastou-me para casa de uma mulher que ele sabia resolver essas situações. Era demasiado tarde, com mais de cinco meses, a mulher não se arriscou a fazer-me o aborto. Levou-me para casa dos meus pais e aí me deixou até ao dia em que os gemeos nasceram. Nesse dia apareceu no hospital. Disse-me que tinha arranjado quem ficasse com eles. Duas tias afastadas, uma das quais tinha acabado de ficar viúva e sem filhos, tinham-se prontificado a tomar conta dos gémeos. Conhecia, vagamente, as senhoras. Moravam num palacete decadente, com um jardim bem-tratado, perto do bairro onde eu tinha nascido. Não se lhe conhecia família a não ser o Quim (sobrinho afastado).
Levou-me, com ele, novamente e voltámos para o Algarve para a nossa antiga vida. Via os miúdos, raramente, quando íamos ao Porto. Doía-me vê-los fugir e esconder-se atrás das "mães"... Enfim, estavam bem tratados e, as senhoras gostavam muito deles, de tal modo que, por diversas vezes pediram que as deixassemos adoptá-los. O Quim recusava, sempre. Achava que o legítimo herdeiro era ele e não os meus filhos que, embora com o nome dele, podiam ser de qualquer um.
Cinco anos depois voltei a engravidar (ainda hoje não sei como aconteceu). Sentia-me só. O Quim passava, cada vez, mais tempo fora de casa. Quando descobri, voltei a esconder a gravidez. Estava disposta a tudo para ficar com este filho. Consegui convencê-lo a voltarmos para o Porto. Depois da joana nascer, ele ficava-me com ela enquanto eu procurava os clientes na rua. Assim decorreram quatro anos até ao dia em que saí de casa para apanhar um combóio que me afastasse dele e daquele tipo de vida.
Quero voltar a estudar (sempre quis) mas, quando o dizia ao Quim, ele ria-se e dizia "Para que precisa uma puta de estudos?!". Eu concordava ..."para quê?!" Acabei por descobrir a resposta. "para melhorar a sua vida e deixar de ser puta!"
Ouvi falar de "unidades capitalizaveis". Parece-me que os alunos estudam uma determinada matéria e, quando se sentem preparados, pedem ao professor para lhes fazer um exame sobre essa matéria. Vou à escola informar-me melhor.Agora que tenho uma casa, tenho um trabalho e, tempo. Depois de limpar as escadas, posso estudar na portaria... Tenho de arranjar quem me fique com a Joana enquanto vou às aulas. No prédio há algumas meninas simpáticas que talvez me possam ajudar. Aquele rapaz do 10º andar, (parece-me que anda a estudar para médico) , talvez me ajude quando eu tiver alguma dificuldade...
Antes, tenho de resolver mais dois assuntos : a adopção dos meus filhos e o mistério da família do sr. José.
O Quim morreu, num acidente, há dois meses (estava alcoolizado, parece-me). Agora posso permitir que as "mães" dos gémeos os adoptem. Talvez um dia me perdoem e, então, tenhamos oportunidade de nos conhecermos e, quem sabe, amarmo-nos...
Quando conheci o Sr. José, no Porto, confessou-me que tinha ido procurar um grande amor. Corou, ao dizer que não tinha qualquer contacto... Desse amor, apenas a foto de uma mulher e um filho, que ela tinha levado na barriga e, que ele nunca tinha conhecido. De vez em quando, durante os últimos 20 anos, ía ao Porto... podia ser que por acaso...
Ao arrumar as coisas do porteiro encontrei esssa foto no meio de um livro, amarelecida e gasta. Parecia-me já a ter visto... sim, tinha-ma mostrado durante o nosso primeiro e ùnico encontro mas... não... vi-a noutro sítio qualquer, neste prédio, enquanto limpava as escadas... Não podia ter visto esta porque não estava exposta e, a outra estava num bonito caixilho que destoava do resto da mobília. Só podia ter sido num dos apartamento, enquanto limpava um patamar e uma porta se abriu... não me lembro onde aconteceu mas não foi há muito tempo...

2 comentários:

Hrrada disse...

Tal como referi no último post, será um prazer ajudá-la e ir tendo a companhia da sua filha cá por casa! Isto dos estudos não anda fácil, confesso que tirar fisioterapia se revelou mais difícil do que eu estava à espera! Mas quando se faz o que se gosta n há (quase) nada que não se consiga! Contudo, tenho sempre tempo para ajudar uma sra por quem já tenho admiração e sempre vontade para ter alegria cá em casa :) Pode ser que consiga absorver um bocadinho desses sorrisos fantasticamnt inocentes da sua Joaninha e isso me faça bem ;)
Vá em frente com a ideia dos estudos!
Boa sorte! :) *

MrX disse...

Peço desculpa por só ter respondido agora, mas isto dos estudos tem-me dado a volta à cabeça!
Tenho muito gosto em ficar com a sua filha sempre que precisar. Agora passo muito tempo em casa porque estou a estudar para o exames e não me importo nada! Adoro crianças e pode ter toda a confiança em mim!

Boa sorte para os estudos! Vai ver que vale a pena!

Mário (10º Esquerdo)