sexta-feira, setembro 30, 2005

O fim do mistério da morte do porteiro

Voltei para casa a pé. Subi e desci ruas, lentamente, envolta no desencanto dos meus pensamentos. Cheguei ao velho parque que mantinha a imponência descuidada das coisas antigas e sem tempo. Sentei-me, num banco de pedra, afastada do mundo. O sol declinava e uma poalha dourada parecia infiltrar-se por entre as folhas das enormes copas. Não me apetecia valorizar muito o "desencontro" mas, também, não podia deixar de sentir a desilusão e a tristeza de me ter deixado enganar...
_"secalhar aconteceu alguma coisa grave...- tentava convencer-me a mim própria- sei lá...a morte de algum familiar...alguma investigação urgente...um acidente..."
Tentei ligar-lhe para o lelemóvel, uma e outra vez, mas continuava desligado. Tinha de voltar para casa. A Marisa tinha-se oferecido para me ir buscar a Joana ao colégio mas precisava de voltar, de ligar o messenger, de ver se havia alguma desculpa... Levantei-me e acelarei o passo.
Mal me conectei, lá estava ele...parecia esperar-me. Entrei a matar

Margarida said: Covarde! Não apareceste porquê? Estavas com medo, era?!...

Jorge said: Eh lá! Covarde?! Eu? Quem não apareceu foste tu. Até já estava preocupado contigo...

Margarida said: Desculpas... Não sou como tu... é claro que estive no local onde combinámos

Jorge said: Desculpas?! Que necessidade temos nós disso? Não combinámos, já, ser livres de explicações? Que as explicações se dão, se nós acharmos necessário e, não porque no-las pedem?!
Pois fica a saber que cheguei antes da hora marcada e não vi nenhuma mulher entrar com a "A aparição".

Margarida said: Confesso que não expus o livro. Mas tb não vi nenhum homem com o "Expresso" debaido do braço!...

Jorge said: Pois...tb o não expus. Estava lá uma pessoa que eu conheço das minhas lides profissionais e, confesso, senti-me inibido. Passei o tempo a desfolhar a revista do Expresso

Margarida said: Caramba! Espera lá... Não estaremos a falar da margarida, a porteira?!... Que é que um detective privado tem a ver...

Jorge said: Um detective privado?! Quem te disse que sou detective particular?! Sou investigador da PJ.

Margarida said: Deduzi...com que então policia de investigação?! Como o mundo é pequeno!... Tenho de descer à terra... vou buscar a minha filha que está, aqui ao lado, em casa da vizinha.

Jorge said: Espera... Vê se a tua vizinha pode continuar a tomar conta da miúda e, nós...porque não vamos jantar esta noite? Aceitas?

Fomos A um pequeno restaurante, com uma varanda, cuja vista sobre o rio era magnifica.

- Queres entrar e tomar um café? - convidei quando regressámos, ainda cedo.
Aceitou. Meti a chave à porta. Sentia-o muito próximo com o seu corpo quase a tocar o meu. Rodeou-me a cintura com os seus braços fortes e, empurrou a porta, com o pé. Deslizou, comigo, para o interior enquanto fechava a porta atrás de nós. As nossas bocas procuraram-se e, o beijo aconteceu, interminável, como se o mundo estivesse prestes a acabar e ele me quisesse devorar. Uma das mãos escorregou-me pelas pernas enquanto a outra me agarrava por ambos os pulsos. O seu corpo continuava a forçar o meu de encontro à porta. A urgência da posse, a explosão de foguetes iniciada no baixo ventre que se espalhava em ondas concêntricas até à planta dos pés... respirações acelaradas, gemidos... Afastou-se, lentamente, enquanto compunha a fralda da camisa por dentro das calças, a gravata, o desalinho do cabelo...
- Queres ajuda para preparar o café?
Eu continuava encostada à porta, atónita com o que se passara e, agora, com a reacção dele...
- Está no armário por cima da máquina do café.
- Vazio... - e mostrava o frasco- não tens mais?
- Na despensa, aí ao teu lado esquerdo...- agora compunha o meu desalinho mas continuava incrédula com o que acabara e, sobretudo, o modo como acontecera...
- Ainda guardas as coisas do antigo porteiro?!- comentou - o caso foi encerrado, sabias?
- Não, não sabia - respondi-desvendaram o que sucedeu?
- Sim. O inquilino da cave, um tal João Escuro foi preso. Confessou tudo. Conheciam-se há mais de 20 anos e, nessa altura, tinham amado a mesma mulher. Considerava que o porteiro tinha sido o responsável pelo desaparecimento dessa mulher enquanto ele estivera internado ( acho que era doente de psiquiatria, se não me engano). Esperou o tempo que achou necessário para vingar o desaparecimento da mulher amada. Sabia que o porteiro tinha uma alergia grave a certos polens, que se tinha acentuado com a idade. Levou-o até ao parque onde sabia existir uma dessas árvores em flor e, sentaram-se por baixo dela. Contou-lhe a sua história e, quando o Sr José começou a ficar com falta de ar, empurrou-o contra o tronco da árvore e roubou-lhe a "bomba" de, cujo medicamento, ele necessitava nessas alturas. Uma nova onda de polen envolveu-os e, o coração do porteiro parou, mesmo antes da traqueia ter ficado obstruída.

1 comentário:

Heavenlight disse...

Bem pensado, sim senhor!!! E o detective promete... aguardo a continuação!