terça-feira, outubro 25, 2005

OUTONOS

A cidade fervilha com a turba de estudantes que regressam de férias. Tenho saudades do tempo em que, também, os meus fillhos voltavam à escola, de toda a animação que esse período trazia a casa... Com o Outono chega-me, sempre, uma enorme melancolia e o mar chama por mim. Sinto a necessidade de esprair o meu olhar, de sentir o cheiro da maresia...
Nos dias cinzentos, em que o sol teima em não espreitar por entre as nuvens, pego no cão e vamos correr para a praia. Se é dia de não haver escola, levamos a Joana, a filha da porteira, connosco.Comemos gelado e brincamos na areia molhada.
Na semana passada, depois de um dia de chuva, resolvi-me a ir até à praia sozinha. O mar chamava-me... Lá estava ele, sentado sobre uma rocha, muito perto da zona de rebentação. As ondas desfaziam-se em espuma e milhares de partículas que brilhavam sob a poalha dourada de um sol enorme e alaranjado, vinham beijar-lhe o cabelo.. Não era a primeira vez que o via por ali, absorto, com um cigarro a consumir-se entre os dedos. Aproximei-me a medo. Parecia soluçar baixinho!... Engoli, em seco, com um nó, enorme, na garganta. Olhou-me e, no seus olhos, havia solidão. Parecia pedir que eu ficasse, ali, com ele. Não disse nada.N~
ao dissemos nada. Continuou a soluçar baixinho. Apetecia-me abraçá-lo... Continuamos, sentados, lado a lado. Acendeu outro cigarro e ofereceu-me o maço com um gesto. Recusei. Queria tocá-lo mas não, tal ousadia não me era permitida. Ele continuava com o olhar fixo num ponto, para lá do mar. Estaria com o seu filho morto? Com a sua vida, aparentemente, cheia? Com a mulher, que eu sabia que tinha?
"_ Um abraço pelos teus pensamentos" - pensei" - " Pobre querido Ernesto!"
Levantei-me. Ele segurou-me pela mão.
_Fica.

marisa

5 comentários:

Anónimo disse...

Pessoal, eh lá!
Vamos deixar morrer o blog? Que é que se passa com vcs?
Vamos lá a puxar pelas histórias dos personagens
beijos

Heavenlight disse...

Marisa:
Texto bonito e bem escrito; gostei muito. Espero pela continuação. Um beijinho.
Luana

Anónimo disse...

Ainda existe muita coisa por explorar nestas bandas. Não se enclausurem dentro do prédio, tenham vida própria. É apenas uma mera apinião.

maresia disse...

olha... acho encantador a forma como o mar e a maresia entram por este prédio adentro depois... depois de nada...

Esse homem, procurará ele quem no mar se perdeu há muito ou pouco tempo? terá ele um dever também? chorará ele um instante que não soube agarrar e se afogou?

BlankPage disse...

E não choramos todos nós por momentos que se perderam? Podemos no entanto aceitar gestos de oferta que nos são oferecidos em mares de escolhas perdidas...mais dois grãos de areia q se konfinam numa partilha?