domingo, maio 14, 2006

O DIA-A-DIA DO PRÉDIO

Tenho ficado mais tempo por casa. Primeiro foi a semana da queima (já não tenho pachorra para tal manifestação) e depois são os exames que se aproximam. Tenho muito que estudar mas, mesmo assim, tem sido bom porque tenho passado mais tempo com a Joana. Se lhe "desse asas" passava o dia metida em casa da menina Rita, por causa do bebé agora que se queixa que a Marisa não a tem levado a passear nem a brincar com o cão. Realmente também não tenho estado com ela. Passa a correr.Quase não pára para conversar. "Bom - dia!, Boa -tarde" e lá sai apressada mas, aparentemente, toda feliz. Não sei que se passa com ela. Se quisesse usar da minha"má-língua" diria que "anda mouro na costa!"
Uma outra que tem andado pelas ruas da amargura, desde que o sr. Pedro desapareceu, é a menina Luana. Sai à noite, de mini-saia e muito maquilhada, e volta de madrugada, com a roupa em desalinho e a maquilhagem esburratada. Chega sozinha, triste e, não raramente, com um copo a mais. Para ser sincera, a maior parte das vezes, nem dou por ela chegar. Às vezes esquece a carteira, a chave...e é nessas alturas que a vejo. Um destes dias até a convidei para entrar, tal era a desgraça em que se encontrava. Tentei meter-lhe um pouco de juízo naquela cabeça. Agarrou na caneca de chá, com as duas mãos, como se tentasse aquecer a alma. Contou-me da sua falta de sorte e das ganas que, às vezes, tem se se auto - destruir, de se provar que não merece viver,de que há algo de errado com a sua pessoa... Estive para lhe contar aquilo por que já passei para lhe demonstrar que temos a obrigação de dar a volta por cima. Não o fiz, não era altura de estar com moralismos nem de provar nada. Deixei para outra vez. Chorou durante muito tempo, primeiro com grandes soluços e depois baixinho. Quando se acalmou deixei-a subir. Espero que se lembre de alguma coisa do que falámos e que resolva dar um novo rumo à sua vida, uma outra oportunidade de ser feliz.
Há um rapaz novo no prédio, chama-se Bruno. Parece ser bastante tímido. Quase não fala quando nos encontramos na escada ou na portaria.Mudou-se há pouco tempo para um andar no mesmo piso da Luana. Parece sossegado. Sai cedo e, raramente, volta tarde. Não sei o que faz...
Quanto a mim, como já disse, tenho ficado mais tempo por casa mas quase não vejo o Jorge. Tem andado muito ocupado com o curso qualquer. Tenho pensado muito nele e acho que continuo a amá-lo...

Margarida (a porteira)

3 comentários:

Fontez disse...

Será amor eterno? Será amor algo fisico? Será amor algo apalpavel?
Segundo neurologistas, o amor controla-se! Será mesmo?

mar disse...

Na minha modesta opinião, o amor não se controla. Aparece e desaparece sem q consigamos controlar... e o amor fisico não existe...sexo, sim. Já o amor platónico existe. Se o amor é eterno?...não sei dizê-lo

Heavenlight disse...

Agora já posso comentar :)
Adorei o texto! A Margarida é alguém que consegue realmente chegar às pessoas! Agora que já conversou com a Luana, pode ser que ela comece a sentir-se mais acompanhada e a gostar mais de si e das pessoas à volta dela. E o Bruno... bem, vamos a ver se ele se abre e fala um pouco de si. Já a Marisa... fiquei curiosa.
Continue; está muito bem escrito e deixa um suspense no ar...