segunda-feira, maio 08, 2006

O TEMPO NUNCA VOLTA

Cheguei cansada. Deitei-me sobre a cama, com o olhar, fixo, num qualquer ponto invisível do tecto. Fiquei, assim durante algum tempo, sem querer recordar. Fechei os olhos...
-De que raça é? - era um homem, pouco mais do que um rapaz.
- Cão, apenas - e sorri.
- É bonito! Tenho-os visto por aqui- disse- Aceita tomar um café?
- Já estou a tomar!... - respondi , pensando - " que quererá este, agora?"
-Posso sentar-me? - Pareceu-me um bocado desconfortável, tímido, até...
- Claro - era a minha faceta maternalista a impor-se - disse que nos tem visto?!
- Sim- Estou na base militar mas estudo Inglês no Instituto que fica no fim da rua... conhece? - não esperou pela minha resposta- costumo parar por aqui para tomar café antes das aulas.
- Pois, o café é bastante bom... - confesso que já tinha reparado nele, a deambular por ali, com aquele ar de menino perdido, mas não me apetecia dizer-lho.
- Gosto muito de cães. Quando era pequeno tinha um que a minha mãe trouxe da rua, perto do trabalho dela. Foi a melhor prenda que algum dia me ofereceram ... - Sorria, enquanto falava- nessa altura vivíamos em Paris.
- Em Paris, Paris?
- Sim. A minha mãe morreu e a minha vida deu umas voltas...uns amigos, percebe?!... metemo-nos numas trapalhadas de adolescentes ... e eu voltei para cumprir o Serviço Militar. Fui para a Bósnia e depois para Timor. Essas experiências fizerm-me crescer e resolvi ficar no Exército por mais algum tempo...Quero ir para a Escola de Hotelaria, quero ser Chef Desculpe... estou para aqui a falar...
- Tudo bem . Continue...
- Estou a gastar o seu tempo - sorriu, desculpando-se - Obrigada por me ouvir mas tenho de ir para o Instituto. Posso vê-la, amanhã, para tomar um café consigo?
Achei piada e aceitei o convite.
No dia seguinte lá estava ele, na esplanada, sentado na mesa do canto com um enorme ramos de rosas na cadeira ao lado. Sorriu, quando eu me aproximei, pegando no ramo
- São para si
- Porquê? Não faço anos... - tentei brincar embora estivesse emocionada. Ao tempo que ninguém me oferecia flores!...Sentia que o meu sorriso era triste.
- Por ter vindo...por estar aqui...por me ouvir...

5 comentários:

mar disse...

aestamos perante as recordações da MARISA. Desculpem...esqueci-me de identificar a personagem

Heavenlight disse...

Boas recordações... fico à espera do resto da história.
Beijinhos!

Fontez disse...

Texto bonito.

impressaodigital disse...

bonito... :)

Oriana Vieira de Freitas disse...

Bem, não conhecia esta tua faceta, foi uma boa surpresa!...Continua! Gostei!