quarta-feira, maio 31, 2006

O TEMPO NUNCA VOLTA (PARTE 3)

Saí disparada, porta fora, mal acabei de receber aquele telefonema. No atrio quase esbarrei com um homem de cabelo branco amarrado em rabo-de-cavalo. Cumprimentou-me e eu olhei-o surpreendida a pensar em quem seria. Não me parecia conhecido. Tinha a certeza que nunca o tinha visto por ali. De qualquer modo tinha mais em que pensar... O Luciano estava à minha espera. Tínhamos acabado de combinar ir almoçar juntos mas acabámos num quarto de hotel com as roupas, desalinhadas, espalhadas pelo chão. Enquanto nos despíamos, um ao outro, eu sentia (mesmo que ao de leve) que algo estava errado naquela situação. Apeteceu-me, mesmo, voltar a vestir e desaparecer, evaporar-me. Por um lado sentia-me inibida mas por outro tinha uma enorme curiosidade em perceber o que se iria passar a seguir. A situação parecia-me incongruente. Fugir parecia-me rídiculo mas ficar... Acabámos a fazer sexo. Pareceu-me que ambos nos esforçámos por atingir a perfeição com cada um, de nós, a tentar corresponder às espectativas que achávamos que o outro esperava.Tudo certo. Tecnicamente foi irrepreensível. Repetimos mais do que uma vez. Ele estava, anormalmente atencioso, sempre a querer saber se eu me estava a sentir bem ( certamente esperava que eu, com a minha provecta idade, me desintegrasse a qualquer momento!)... A certa altura, num período de descanso, disse, acariciando-me o rosto e olhando-me nos olhos:
- És tão bonita! Devias ter sido deslumbrante há vinte anos...
- Nunca dei por isso. Acho que era normal...Não percebo como é que me podes ver, assim, com esses teus olhos verdes!... Tu és bonito, és jovem... tens umas madeixas tão giras - brinquei enquanto lhe desalinhava o cabelo
- São pintadas
- ah!?
- Vives cá?
- Sabes que sim...- olhei-o surpreendida
-Não moras em Viana?!
Nunca lhe tinha falado da minha vida passada... como é que ele podia saber?!
- Já vivi. Como é que sabes disso?
- Sei muita coisa a seu respeito -disse com um sorriso ingénuo (?)e brincalhão - Sra Dona 4 Emes - Marísa Maria Macedo Matos de Albuquerque.
- Como?! - Começava a ficar ligeiramente irritada
- Não te zangues! Investiguei na Direcção Geral de Viação através da matrícula do teu carro.
Olheio-o como se não o conhecesse
-Tenho fome... Vamos.
Cheguei a casa e, dirigindo-me à casa de banho, pus a banheira a encher, despejei-lhe um frasco de sais e meti-me lá dentro. Tinha necessdade de me levar e nem sabia porquê ou de quê. Deixei-me ficar, ali deitada, de olhos fechado a tentar não pensar em nada... Quando abri os olhos o meu cão tinha entrado, estava deitado no tapete com as patas da frente cruzadas e a cabeça pousada nelas, a olhar-me com aqueles olhos molhados e meigos como quem diz " não te peocupes estarei, aqui, contigo para sempre"

terça-feira, maio 23, 2006

Afonso Vilhena

Subi as escadas lentamente, como quem absorve as paredes, o tecto, todos os passos. Cheguei ao meu andar sem ter visto ninguém. Desfiz as malas e sentei-me, contemplativo, junto à janela. Defronte, duas árvores tentam sobreviver na selva urbana, rasgando a calçada e erguendo-se, imponentes. Se fechar os olhos sinto a rugosidade dos ramos, o aroma fresco das folhas. Sempre gostei de sentir o mundo para me sentir a mim próprio. Vim para esta casa definitivamente. Nunca consegui estar muito tempo no mesmo local. Sempre senti o apelo do desconhecido e sempre segui os meus impulsos. Não que isso tenha mudado, mas quero um lugar que envelheça comigo, quero ser amigo daquilo que me rodeia sem estar a partir. Quero reencontrar-me. Escrevi durante toda a minha vida sobre aquilo que devemos ser, sobre o mundo, sobre o que está para além do táctil e do visível. Fui famoso. Os livros de Afonso Vilhena encheram as prateleiras das livrarias e a minha conta do banco. Peguei no dinheiro e construí um centro com um jardim. Centro de conhecimento da vida, do que não se sabe. Do oculto. Agora vou lá falar de vez em quando, na reunião de grupo geral. Tive uma mulher, mas nunca casei. Ela partilhou a minha cama, a mesa, a casa, mas nunca a minha alma. Não compreendia este meu fascínio pela vida. Acabou cedo. Passei a ser amante da natureza e da própria existência enquanto real e enquanto inatingível. Ainda o sou, aos 55 anos. Ainda tenho em mim uma juventude que espero nunca perder.
Abri os olhos. Há muita coisa a fazer para que esta casa se torne o meu lar. Quero colocar naquela parede um espelho, de forma a ter reflectida dentro do quarto a beleza do céu e das árvores. A minha sala precisa de flores, fetos e violetas, para ganhar cor e vida. Desempacotei os livros e comecei a dispô-los na estante da sala. Depois, liguei a aparelhagem e Bach encheu o ar de forma harmoniosa e perfeita.
Só nessa altura me lembrei que me esquecera de comprar cigarros – o meu único vício. Há algum tempo que ando a tentar deixar de fumar, mas acabo sempre por não resistir. Calcei os sapatos e desci as escadas. À porta do prédio estava uma senhora bem-parecida, mais ou menos da minha idade. Cumprimentei-a cordialmente, mas fiquei admirado com a forma como olhou para mim, com um misto de desconfiança e surpresa. Não tenho ar de bandido, mas talvez o meu 1.90 m e o meu cabelo branco apanhado em rabo-de-cavalo a tenha colocado de sobreaviso – afinal de contas sou um estranho para os meus vizinhos e sim, posso parecer um pouco excêntrico.
Fui até ao quiosque mais próximo e comprei um maço de Cohiba. Voltei para casa, acendi um cigarro e deixei a melodia de Bach tomar conta de mim.

segunda-feira, maio 22, 2006

O Tempo Nunca Volta (Parte 2)

O telem´vel tocou, precisamente, quando eu deixava o ginásio. Era o Luciano.
- Sim?!
- Olá! Como estás? -perguntou do outro lado
- Bem, obrigada. E tu?
- Preciso de falar contigo... Onde estás?
- A sair do ginásio.
-Posso ir ter contigo? Estou perto
Fui apanhada, um pouco, de surpresa. Suada, com o cabelo apanhado em rabo-de-cavalo, sem maquilhagem, com um fato de treino que já tinha visto melhores dias. Mas, porque não? Que tinha eu a perder?
- Ok. Tenho de ir ao supermercado buscar comida para o cão...podemos tomar uma água juntos.
Encontrámo-nos num barzito, no centro comercial
-Ficas bonita com esse ar de miúda
-Sim, devo ficar !...- e dei uma gargalhada
- A sério
Conversámos durante um bom bocado. De tudo e de nada. das nossas vidas passadas e presentes, dos desejos e dos projectos. A sua vida tinha feito dele um jovem muito mais maduro do que a idade faria supor. Começava a parecer-me fascinante
- Tenho de te apresentar uma pessoa - disse eu a pensar em alguém como a Luana.
Olhou-me muito sério.
-Achas que não consigo arranjar uma namorada sozinho?!
- Não é nada disso. Claro que consegues ...
-Quero-te a ti. Era disto que precisava de te falar
Engoli em seco. Não estava à espera de semelhante revelação e muito menos dito daquela maneira
- Desculpa?!
- Sim. Ouviste muito bem. Desejo-te desde o primeiro dia em que te vi
- Desculpa mas ainda não estou preparada para me relacionar com ninguém e muito menos contigo...quase podias ser meu filho!...
- Mas não sou. Sou, apenas um homem que gosta de ti. A idade está na tua cabeça
Despedimo-nos, no parque de estacionamento, com um beijo ao canto da boca.
Fiquei a pensar em tudo o que se tinha passado, em todas as palavras que tínhamos dito, em todos os gestos e comecei a consciencializar-me de como o achava um homem fascinante. Trocámos mensagens durante toda a noite. Voltámos a encontrar-nos no dia seguinte e no outro e no outro. Parecíamos dois adolescentes apaixonados sem medo de o demonstrarem ao mundo.Dei comigo a acreditar que o tempo tinha voltado para trás e de que não tinha mal nenhum sentir-me jovem e desejada outra vez. O que os outros pensassem deixou de me interessar. Passava os dias a desejar os momentos que passávamos juntos.

domingo, maio 14, 2006

O DIA-A-DIA DO PRÉDIO

Tenho ficado mais tempo por casa. Primeiro foi a semana da queima (já não tenho pachorra para tal manifestação) e depois são os exames que se aproximam. Tenho muito que estudar mas, mesmo assim, tem sido bom porque tenho passado mais tempo com a Joana. Se lhe "desse asas" passava o dia metida em casa da menina Rita, por causa do bebé agora que se queixa que a Marisa não a tem levado a passear nem a brincar com o cão. Realmente também não tenho estado com ela. Passa a correr.Quase não pára para conversar. "Bom - dia!, Boa -tarde" e lá sai apressada mas, aparentemente, toda feliz. Não sei que se passa com ela. Se quisesse usar da minha"má-língua" diria que "anda mouro na costa!"
Uma outra que tem andado pelas ruas da amargura, desde que o sr. Pedro desapareceu, é a menina Luana. Sai à noite, de mini-saia e muito maquilhada, e volta de madrugada, com a roupa em desalinho e a maquilhagem esburratada. Chega sozinha, triste e, não raramente, com um copo a mais. Para ser sincera, a maior parte das vezes, nem dou por ela chegar. Às vezes esquece a carteira, a chave...e é nessas alturas que a vejo. Um destes dias até a convidei para entrar, tal era a desgraça em que se encontrava. Tentei meter-lhe um pouco de juízo naquela cabeça. Agarrou na caneca de chá, com as duas mãos, como se tentasse aquecer a alma. Contou-me da sua falta de sorte e das ganas que, às vezes, tem se se auto - destruir, de se provar que não merece viver,de que há algo de errado com a sua pessoa... Estive para lhe contar aquilo por que já passei para lhe demonstrar que temos a obrigação de dar a volta por cima. Não o fiz, não era altura de estar com moralismos nem de provar nada. Deixei para outra vez. Chorou durante muito tempo, primeiro com grandes soluços e depois baixinho. Quando se acalmou deixei-a subir. Espero que se lembre de alguma coisa do que falámos e que resolva dar um novo rumo à sua vida, uma outra oportunidade de ser feliz.
Há um rapaz novo no prédio, chama-se Bruno. Parece ser bastante tímido. Quase não fala quando nos encontramos na escada ou na portaria.Mudou-se há pouco tempo para um andar no mesmo piso da Luana. Parece sossegado. Sai cedo e, raramente, volta tarde. Não sei o que faz...
Quanto a mim, como já disse, tenho ficado mais tempo por casa mas quase não vejo o Jorge. Tem andado muito ocupado com o curso qualquer. Tenho pensado muito nele e acho que continuo a amá-lo...

Margarida (a porteira)

segunda-feira, maio 08, 2006

O TEMPO NUNCA VOLTA

Cheguei cansada. Deitei-me sobre a cama, com o olhar, fixo, num qualquer ponto invisível do tecto. Fiquei, assim durante algum tempo, sem querer recordar. Fechei os olhos...
-De que raça é? - era um homem, pouco mais do que um rapaz.
- Cão, apenas - e sorri.
- É bonito! Tenho-os visto por aqui- disse- Aceita tomar um café?
- Já estou a tomar!... - respondi , pensando - " que quererá este, agora?"
-Posso sentar-me? - Pareceu-me um bocado desconfortável, tímido, até...
- Claro - era a minha faceta maternalista a impor-se - disse que nos tem visto?!
- Sim- Estou na base militar mas estudo Inglês no Instituto que fica no fim da rua... conhece? - não esperou pela minha resposta- costumo parar por aqui para tomar café antes das aulas.
- Pois, o café é bastante bom... - confesso que já tinha reparado nele, a deambular por ali, com aquele ar de menino perdido, mas não me apetecia dizer-lho.
- Gosto muito de cães. Quando era pequeno tinha um que a minha mãe trouxe da rua, perto do trabalho dela. Foi a melhor prenda que algum dia me ofereceram ... - Sorria, enquanto falava- nessa altura vivíamos em Paris.
- Em Paris, Paris?
- Sim. A minha mãe morreu e a minha vida deu umas voltas...uns amigos, percebe?!... metemo-nos numas trapalhadas de adolescentes ... e eu voltei para cumprir o Serviço Militar. Fui para a Bósnia e depois para Timor. Essas experiências fizerm-me crescer e resolvi ficar no Exército por mais algum tempo...Quero ir para a Escola de Hotelaria, quero ser Chef Desculpe... estou para aqui a falar...
- Tudo bem . Continue...
- Estou a gastar o seu tempo - sorriu, desculpando-se - Obrigada por me ouvir mas tenho de ir para o Instituto. Posso vê-la, amanhã, para tomar um café consigo?
Achei piada e aceitei o convite.
No dia seguinte lá estava ele, na esplanada, sentado na mesa do canto com um enorme ramos de rosas na cadeira ao lado. Sorriu, quando eu me aproximei, pegando no ramo
- São para si
- Porquê? Não faço anos... - tentei brincar embora estivesse emocionada. Ao tempo que ninguém me oferecia flores!...Sentia que o meu sorriso era triste.
- Por ter vindo...por estar aqui...por me ouvir...