domingo, julho 31, 2005

ENCONTROS

A minha nova vida tem decorrido entre passeios de reconhecimento a esta cidade. Alguns locais estão completamente transformados e já não os recordo. Mas aqui e ali, ainda, persistem alguns cantos intocáveis.
Dos meus filhos, os dois do meio estão a estudar em Lisboa. A mais nova ficou no Porto e, o mais velho, trabalha em Viana do Castelo.
A porteira continua a olhar-me como se me conhecesse de algum lugar... Se mete conversa refere, inevitavelmente, "conheço-a de qualquer lado!" Ainda ontem mo voltou a repetir quando veio cá a casa pedir-me para ir dar uma injecção aos gatos da professora do 11º. Fiquei admirada com o pedido. A verdade é que não sei nada sobre enfermagem veterinária mas, como diz a minha mãe, "tirando a alma e o feitio somos como os animaios!" e lá me dispus a cooperar.
Enquanto esperava pelo elevador no hall passou um homem, com ar de quem estava a ser perseguido por um fantasma, que se esgueirou pela escada abaixo, silenciosamente. De repente fui assaltada pela recordação do estudante de medicina que eu conhecera à muito tempo!...
Subi no elevador com um homem dos seus 509 anos, de fato, cabelo quase todo branco, a barba bem aparada, os olhos... Reparou que eu o estava a admirar. Olhou-me de cima a baixo, de forma descarada, o que me fez corar (uma mulher da minha idade!...). Fixou os seus olhos nos meus. Sustive-o. Parecia o jogo do gato e do rato para saber quem desistia primeiro. Sentia o rosto cada vez mais encarnado mas, nenhum de nós parecia querer baixar os olhos, o tempo parecia uma eternidade... O elevador parou no &º andar e ele saiu. Descontraí, respirei fundo e apeteceu-me escorregar, devagarinho, ao longo da parece do elevador, e sentar-me no chão.
Os gatos esperavam por mim. A professora tem estado fora e eles têm estado aos cuidados da Inês do 13º. Afinal não havia nenhum doente era, apenas, a altura da contracepção. Uma injecção sub-cutânea de um progestativo e lá ficaramm femeas e machos prontos para um são convívio durante os próximos seis meses.

sábado, julho 30, 2005

mente baralhada

Andei a evitar a Marta durante toda a semana. Mas ontem ela veio cá a casa.
Disse que me achava estranha que mal falava com ela. Eu disse que não tinha nada, que era impressão dela. Mas ela continuava a dizer que algo se passava. Até que ela própria, me deu a desculpa:
- Estas com saudades da tua família não é?- disse.
Disse que era isso mesmo, que até estava a pensar lá ir passar uma semana para aproveitar as festas de Agosto.
- Fico mais descansada. Até achei que estivesses chateada comigo.
Para ver se o rumo da conversa mudava disse:
- Bem, tenho de te mostrar a minha casa. Não há muito para ver. Mas uma coisa garanto, tenho a melhor vista para a cidade.
Quando lhe mostrai a cozinha, abria a janela para ela ver o pátio do prédio. E quando estava a dar meia volta para continuar a minha visita guiada ela chamou-me:
- Oh Viky! Anda cá ver isto.
Ela apontou para a janela do meu vizinho do lado. Pisquei os olhos varias vezes para confirmar que estava a ver bem. E realmente estava mesmo a ver o meu vizinho em pleno acto sexual.
Olhei para a Marta como que a pedir desculpa, mas ela sorriu e voltou a olhar para a janela. Desejei que ela voltasse as costas para continuarmos a visita, mas ela continuou a olhar. Por momento lembrei-me da noite em casa dela, seria aquela a cara que eu estaria a fazer ao vê-la? Espantada com o interesse dela limitei-me a olhar também.
Passado alguns momentos em silencio, ela voltou a olhar para mim e disse:
- Sabes. Gosto de ver uma boa foda.
Sem pensar respondi que também.
-Também?! Muito me espanta a menina. O que falta saber mais sobre ti?- disse ela com ar de brincadeira.
E foi aí. Foi nesse momento que eu lhe contei tudo. Não queria guardar nem mais um segundo o peso que tinha dentro de mim. Contei o que tinha visto, naquela noite em casa dela, tentei explicar que não tinha sido por mal que olhei por acaso e que depois não fui capaz de deixar de olhar. Desculpei-me dizendo que talvez fosse a minha curiosidade em saber como era.
Ela ficou a olhar para mim durante alguns segundos que mais pareciam dias, aproximou-se de mim, beijou-me ou lábios olhou para mim, sorriu e foi-se embora sem dizer uma única palavra. Eu fiquei parada a olhar para a porta da cozinha, de coração leve, mas com a mente baralhada.

quarta-feira, julho 27, 2005

Vou...

Não gosto destes dias de verão em que a chuva aparece do meio do nada, não gosto deste cheiro de terra molhada que teima em fazer-me comichão no nariz e tirar-me a calma ao respirar...sinto-me afogueada, custa-me o simples facto de fazer entrar e sair o ar em mim...não gosto...
Talvez por isso me sinta tão irritada hoje...a juntar á dor de cabeça que me acompanha desde que abri os olhos pela manhã...vejo-me no reflexo do vidro do comboio...as olheiras profundas denunciam uma noite mal dormida...o ar demasiado sério que me apresso a desfazer...tento relaxar durante a viagem...
Dou por mim a pensar no convite do António...já o recebi faz dias e propositadamente ainda não lhe respondi...não sei porque o faço...ou então sei...quero ir e não quero ir...o facto do Pedro ter passado lá por casa na noite anterior não me ajuda em nada a decidir...sinto-me culpada...
Não quero chegar ao pé do António e dizer-lhe que ando a dormir com outra pessoa, mas também não quero mentir-lhe e dizer que não ando com ninguém...não me parece certo...não quero afastar o Antonio, mas também não quero perder o que tenho com o Pedro...estou confusa! Passo a vida confusa nestes últimos tempos...o Pedro não quer nenhum relacionamento sério comigo, ainda mais porque sabe do meu passado...acho que gosta da maneira como o sexo acontece entre nós e apenas isso, o António nunca se insinuou de maneira nenhuma, possivelmente até serei apenas eu que já pense dessa maneira, que ele pretenda envolvimento fisico comigo...a verdade é que nunca tentou nada de mais intimo...coitado...eu para aqui com conjecturas e se calhar o rapaz só precisa mesmo de companhia...e depois dizem que são sempre os homens que pensam nisso...dou por mim a sorrir e com o olhar intrigado da senhora que viaja sentada á minha frente...
Vou aceitar o convite do António, está decidido! E depois...nunca fui ao teatro...quer dizer, as vezes que fui ainda andava no liceu e não me lembro assim muito bem delas...por isso não contam...
Agora que resolvi esse assunto fico mais livre para pensar no Pedro...primeiro disse que passava lá em casa, depois nunca mais aparecia...já não contava com ele, acabei por tomar duche e vestir a camisa de noite, puxei as cobertas para trás e fui sentar-me na sala á espera que o sono viesse enquanto passava os canais á procura de algo que me despertasse a atenção...
A campainha tocou quando estava a ser meia noite, apressei-me a vestir um casaco por cima da camisa de noite para abrir a porta.
Tinha cortado o cabelo , já não o via á algum tempo, tinha saudades...foi tudo tão rápido, com ele é sempre tudo demasiado rápido, sem dar conta já estamos abraçados em cima do sofá ou da cama, até mesmo no tapete da sala. Como se assim confirmasse que era por aquilo que apenas ali ia...as mãos em todo o meu corpo, a força que fazia em mim, as marcas que eu sabia que ia ter no outro dia denunciando a brutidade naquela pele sensivel e mais macia...
Mas o que me magoava mais naquilo tudo era quando tudo acabava...menos de cinco minutos era o que lhe bastava para vestir toda a roupa e preparar-se para ir embora depois de eu sentir os seus espamos de prazer...gemia baixinho...tão baixinho qe eu quase não o conseguia ouvir...nunca tinha estado com mais ninguém assim tão silencioso...sem qualquer problema mostrava que estava satisfeito e podia ir embora...quando a minha vontade era ficar ali enrolada nele muito quietinha...
Depois dele sair pensava sempre que devia recusar uma próxima vez...mas também sabia que isso não iria acontecer assim tão depressa...

segunda-feira, julho 25, 2005

Conversa

(sei que não era a minha vez de escrever, mas como vi que não postou quem devia, decidi arriscar, senão perco o fio à meada...espero que desta vez o texto fique!)

- Não sei o que se passa aqui no prédio! Dizem que a vida tem ciclos de sete anos, talvez este prédio esteja envolto num desses ciclos e que estranhamente estejamos todos envolvidos!
- Rita, se te pedisse para dizeres disparates não o fazias tão bem como acabaste de fazer! Que azares houve no prédio?!
-Olha o Mário e a Liliana...a miúda não conheço bem, mas sabes que adoro o rapaz e fiquei chocada como que aconteceu! Depois o meu programa de rádio foi ao "ar" sem sequer completar um ano de vida, fui despedida e nem sei porque diabo! Tu passas a vida no hospital, os vizinhos perdem-se entre o vão de escada e o elevador, já ha algumas semanas que não encontro ninguém!
-Parece impossivel como consegues transformar acasos da vida em coincidências piores do que as que a Margarida Rebelo Pinto escreveu!
-E porque diabo tens tu de fazer de tudo uma gracinha?
-Porque estou feliz! Vou ser pai, tenho tudo o que preciso e o que menos quero pensar é em desgraças dos outros e minhas ou tuas -nossas! Mas se queres saber estava a pensar em ir falar com o puto lá em cima, as coisas não devem estar famosas!

Tocam à campainha...

-Mário! Entra! Estavamos a falar em ti...iamos lá a cima ver como estavas.
-Não muito bem..eu e a Liliana...não podemos estar juntos! Os pais dela...

O Mário precisava desabafar, instintivamente, a Rita não resitiu e abraçou-o. O rapaz sabe que não teve culpa de nada, felizmente não houve sequelas de maior, eu próprio encarreguei-me de os ir ver ao hospital...tudo vai passar, tudo passou, o pior são as relações humanas, é o mais dificil de tudo, reconciliar os pais da Liliana com o Mário e é isso que o aflige!
Enquanto esteve em nossa casa, falou de toda a angustia que sente, a saudade de estar ao lado dela, o à vontade que já não sente em andar de elevador com receio de encontrar os pais dela.
Não falo muito com ele, prefiro ouvi-lo, já a Rita:
-Vais ver que eles vão compreender! Tens que ter calma, a Liliana vai explicar-lhes a situação. Ela tem 17 anos mas sabia muito bem o que estava a fazer, a culpa não é só tua! - (A moderação não é uma qualidade da Rita!)
-Mas e se eles nunca mais a deixarem vir falar comigo?
-"Nunca" é muito tempo e entretanto ela fica maior de idade-eheheh- tem paciência, sabes que a Margarida vos apoia e tens sorte de a Liliana ainda ter o Telemovel...

Gostei que o Mário tivesse vindo falar connosco, desabafou e ficou a saber que ninguém esta contra ele,ninguém o pode ou consegue julgar!

À saída, já sem a Rita:
- ÉS bom rapaz! Não tens que te punir, nem deixes que te punam... ela vai voltar para a tua beira...entretanto tens esta porta aberta (mas tenta vir quando a Rita não estiver porque ela não se cala e as vezes nem sabe o que diz, como viste! eheheh) Vai lá e força!

João (3º direito)

quinta-feira, julho 21, 2005

Quem me ouve?

Dobro a última t-shirt e meto-a dentro da grande mala azul. Deito-me na cama de barriga para cima, contemplando o tecto branco e pensando naquilo que nesta semana passei.
Primeiro o acidente. Um bêbado maluco que conduzia em contra-mão na auto-estrada do Sul e que me fez perder o controle do carro e capotar. Não o apanharam.
Depois, acordei no hospital, com uma perna e um braço lesionados. Fui operado à fractura que tinha no perónio e ando agora de muletas. Parece que, afinal, não fiz luxação no braço. Devo ter dado uma forte pancada, o que me provocou dores fortes, mas não foi necessário imobilizar o braço. E ainda bem, porque senão nem de muletas me poderia deslocar.
Quando soube que a Liliana se encontrava em coma, quase desesperei. Isso, aliado ao facto de nem os pais dela, nem a Madalena me dirigirem a palavra, foi muito doloroso para mim. No entanto, compreendo o que eles sentem. Foi imperdoável o facto de lhes termos mentido. Na altura, não gostei da ideia de mentir aos pais da Liliana. No entanto, não me opus veementemente a essa situação. Acima de tudo queria a Liliana ao meu lado. Agora sei que errei. Sou eu que tenho 19 anos. A Liliana tem 17. Eu devia tê-la obrigado a dizer a verdade aos pais. Mas fui egoísta ao ponto de não me importar verdadeiramente. Felizmente, os meus pais vieram e apoiaram-me, embora censurassem o facto de eu ter feito uma viagem àquela hora da madrugada, depois de uma festa em que, sem dúvida, me tinha cansado bastante. O facto da Madalena, entretanto, me ter perdoado, também me ajudou imenso. Mas, o melhor foi quando falei pela primeira vez com Liliana, depois de ela ter acordado do coma, dois dias depois. Dois dias de espera. Dois dias de desespero. Fiquei mesmo aliviado quando ela me falou e me disse que não se importava com o que tinha acontecido. Que me continuava a amar, como sempre. Entretanto, os pais dela entraram no quarto do hospital e mandaram-me sair. Foi a única vez que me dirigiram a palavra.
Entretanto, ela recuperou de forma quase milagrosa. Falei com a Madalena e ela relatou-me o que os médicos tinham dito. Parece que ela não vai ficar com sequelas do acidente. Já teve alta e está agora em casa, em completo repouso. Os pais dela não me deixam entrar em casa para falar com a Liliana. Contacto com ela por telemóvel e vou conversando com a Madalena. Nestes últimos dias, tem-se tornado numa amiga preciosa.
Os meus pais estão cá na cidade. Disse que eles se podiam ir embora, mas insistiram em ficar. Estão instalados num hotel.
Hoje vou voltar para a minha terra no interior do país. Vou de férias e, só volto em Setembro. Mais de um mês sem ver o meu amor! Não sei se vou aguentar...
Levanto-me da cama e fecho a mala azul. Com a ajuda das muletas, vou até à janela e contemplo a magnífica vista que o 10º andar me proporciona. Sinto uma desesperada necessidade de falar com alguém. Em casa da Liliana não posso entrar. Com quem poderei desabafar?
Pego nas chaves de casa e cambaleio com as muletas até à porta. Entro no elevador. Carrego no botão e começo a descer. Abro a porta, saio e toco à campainha do 3º Direito - o apartamento da Rita e do João.

quarta-feira, julho 20, 2005

Descalça vai para o mar, maresia leva no corpo.

Faz tempo que não dou notícias. Quando o Mar chama, não há maresia que lhe resista...

Vou começar por continuar o meu comentário a uma frase que me chamou a atenção numa conversa de escadas com a vizinha Mar.

Ir ao Algarve a uma festa é uma forma de estar na vida, aceitar desafios e não ter medo de seguir instintos. Ir ao Algarve a uma festa é só uma alegoria da vida. Uma das alegorias. Partir sem medos de não ficar, aceitar na hora, não olhar para a agenda, deixar-se levar. Gosto disso.

As consequências... na vida há sempre consequências, umas vezes boas, outras vezes más, umas vezes muito boas, outras vezes muito más. Mas com todas aprendemos, crescemos, vivemos. A única consequência irreversível que conheço é a morte. Mas a morte é o primeiro caminho que percorremos quando somos feitos do encontro entre o mais profundo de um homem e de uma mulher. A única certeza que podemos ter na vida, é que um dia morreremos.

Cada vez que parto rumo ao horizonte nunca sei se volto. Mas parto sempre sem hesitação. Com isso perco laços em Terra, com isso ganho forças de gente brava. Posso cruzar-me com um barco pirata em pleno Oceano, mas evito ser levada por um comboio na estação do Monte Estoril. O meu grande mentor de conduta de vida, um dos mais importantes, pelo menos, diz "Na Vida não há Soluções, há Caminhos".

Um dia, estava eu naquelas horas em que o olhar se perde lá muito para além do horizonte, fui acordada por um maço de cigarros atirado ao chão. Não consigo ver nada no chão. Apanhei e li "fumar mata". Pois mata, mas viver também. Foi esta frase doida que me ocorreu na primeira fracão de segundos.

Há um dito cabo-verdeano que diz "depois de sab, morrer ka nada". Tentar explicar sab é o mesmo que tentar explicar saudade. Não há sinónimos, não há uma definição. É qualquer coisa que sabemos e sentimos mas que não se exprime senão no dialecto local. Sab é tudo de bom. "Tudo sab?" pode querer dizer apenas "tudo bem?" um cumprimento simples. Mas pode também significar o que a vida tem de mais belo e mais completo. Correndo o risco de limitar uma palavra tão grande, diria que sab é felicidade. Depois de termos sentido, vivido cada dia como se fosse o último, morrer... morrer não é nada.

Não tenho medo da morte, da minha, pelo menos. Tenho medo de perder fisicamente aqueles que Amo. Mas se às portas do Céu me perguntassem proque ali estava, diria "Já vivi o suficiente". Podemos sempre viver mais, mas Viver a fundo é bem mais infinito.

terça-feira, julho 19, 2005

Novidades (ou nem por isso!)

Fui ao Porto, ao S.João. Gostaria de falar sobre a mística destes festejos mas a oportunidade já passou...talvez para o ano...
Aproveitei e fui regularizar a situação dos gemeos. A grande casa continua igual na sua grandeza e decrepitude mas, acima de tudo, senhora dos seus mistérios. Ficámos sozinhos (eu e eles) num recanto do enorme jardim um bocado descuidado nas suas velhas árvores. Contei-lhes que tinha um novo emprego e uma casa onde poderíamos viver os quatro, eu, eles e a irmazinha. Perguntei-lhes se queriam vir, comigo, para Lisboa.
- Queremos ficar com as nossas mães, desculpe!
O meu coração encolheu, encolheu até quase deixar de o sentir...engoli em seco com as lágrimas a quererem saltar-me dos olhos... "as nossas mães", "as nosssas mães"... Assinei todos os documentos que o advogado me colocou à frente. A partir dali, eram os filhos delas e não so meus filhos ( que, verdadeiramente, nunca foram!).
Ao bater o enorme portão de ferro forjado, atrás de mim, foi como se estivesse a voltar uma página da minha vida que não teria o direito de voltar a abrir. Tinha de reconhecer que "as mães" tinham feito um bom trabalho. Os gemeos estavam crescidos (mais altos do que eu), bem educados, estudavam num boa escola, tinham optimo aproveitamento...

Voltei ao prédio, à Joana (tão linda que está, a minha menina!), à minha vida... Os vizinhos continuam a ser simpáticos. A esta nova, que se mudou para o apartamento aqui do lado, todas as vezes em que a encontro tenho a sensação de já a ter visto... Disse-me que tinha vindo do Porto onde tinha sido enfermeira na maternidade do Hospital de S.Joao. Foi lá que os meus filhos nasceram... talvez nos tenhamos cruzado aí, não sei...
O inspector Segredo deixou de aparecer. Terão chegado a alguma conclusão em relação à morte do Sr. José? Terão encerrado o caso? Secalhar nem sequer havia caso...
Voltando aos inquilinos...aquele menino tão simpático que anda a estudar para médico teve um acidente com a menina Liliana. Parece que vinham de uma festa no Algarve... para o que lhes havia de dar...ir ao Algarve a uma festa!...
Há muita gente que deve estar de férias porque raramente os vejo. A menina Rita continua a ir passear o sebastião mas anda com um ar muito enjoado...até parece que anda grávida! Outra que parece que se mudou de vez, para cá, é a senhora do 11ºF...

É verdade, comprei um computador (em 2ª mão). O funcionário da loja ofereceu-se para me ensinar a lidar com ele. Já aprendi alguma coisa... é muito interessante porque nos liga ao resto do mundo fazendo-nos perceber que afinal o mundo é pequeno...

sábado, julho 16, 2005

Ansiosa pelas férias!

Tenho trabalhado demais...neste mês a as coisas complicam-se porque temos de trabalhar a dobrar na revista para deixar o numero de Agosto pré-preparado e assim nos revesarmos uns aos outros nesse mês nuns merecidos dias de férias.
Estou ansiosa pelas férias!
Ultimamente tenho chegado muito tarde e por isso raras vezes me cruzei com alguem do prédio, a ultima vez foi mesmo com o nosso "casalinho" de apaixonados que iam muito satisfeitos para uma festa.
Ao que soube, pela porteira tiveram um acidente e estao ambos no hospital. Espero que em breve estejam de volta ao predio.
Tenho saudades da professora do 11º...foi para a terra ha ja algum tempo e ainda nao voltou! Por falar nisso vou la colocar comer aos gatinhos porque na altura me ofereci para ajudar a cuidar deles na sua ausencia.
Pego numa garrafa de agua fresca e desco as escadas, pego na chave debaixo do tapete e abro a porta devagarinho...la vem eles a espreitar por detras das esquinas, sou eu bichaninhos!- digo eu baixinho.
Acendo a luz da entrada e vou a cozinha onde procuro o saco da ração e de seguida coloco a raçao na tacinha bem como a agua fresca.
Deito fora a areia suja e coloco areia limpa e sento-me no chao, dois deles vem ter comigo e brincam com o meu porta chaves que esta pendurado no bolso das calças...hehe já me conhecem e devem ter saudades da dona nao é?- brinco com eles e faço-lhes festas enquanto os outros mais ariscos nao se aproximam ficando a mirar a brincadeira muito atentos e desconfiados!
Levanto-me devagar, e encosto-me mais um pouco a olhar para eles enquanto comem mais um pouco antes de eu ir e apagar a luz.
Portem-se bem, tenho de ir, mas amanha volto para vos fazer mais um pouco de companhia.Fecho a porta, coloco a chave no sitio habitual e subo ao meu apartamento.
Deito-me no sofá e penso: os gatinhos estao como eu, aqui sozinha sem niguem para me fazer companhia e fico triste por momentos...mas depressa me levanto e tento afastar esta ideia do pensamento. Ponho a musica a tocar e vou buscar um livro para ler antes de me deitar, devo andar mesmo a precisar de férias para me deixar levar por um pensamento deste genero.

sexta-feira, julho 15, 2005

É tempo...

Isto nunca mais acaba!


Está um calor infernal! Um óptimo dia para passear… E eu aqui em casa, rodeada de papeis e de livros, a tentar perceber as mais bizarras patologias do ser humano para um dia as poder “combater”…

Estou farta! Cansada! Consumida! E irritada! De 5 em 5 minutos olho pela janela e desejo não ver sorrisos, nem pessoas a divertirem-se… E sinto-me mesquinha e incrivelmente egoísta! Adoro viver! E se há coisa que sempre me fez bem foi estar rodeada de pessoas felizes: é contagiante! Mas não hoje! Hoje não consigo sentir mais nada além de cansaço…
Mas depois penso no curso… Adoro fisioterapia, mesmo que implique sacrifícios!... E isso dá-me forças para continuar. Além do mais, em breve terei as minhas merecidas férias!…
E quando as tiver, talvez não seja tarde demais para voltar ao café da esquina e procurar aquele sorriso que me prendeu… Talvez tenha tempo para reparar no seu olhar, e coragem para o descobrir…

Sim, eu sei que o tempo não pára…

Mas os meus sonhos também não…

quinta-feira, julho 14, 2005

Violências

Bateu-me. Ele, o meu marido... há quinze anos que não acontecia...
Não, aquela, ali no chão, não sou eu... vejo a cena de fora. Naquele momento só me preocupo em sair do quarto, em que aquilo acabe, em colocar gelo sob o local da agressão, em ir trabalhar na manhã seguinte, em que as marcas não se notem...
Tenho pensado, muitas vezes, nas razões que me fazem ficar, que me obrigam a aceitar os pedidos de desculpa... Que me leva a ficar? Sou, economicamente, independente...os meus filhos são crescidos... a casa é minha... não o amo há muito tempo... Porque não sou capaz de colocar um ponto final nesta situação?
Tenho medo de encarar a solidão a que me votaria... tenho medo da sensação de voltar para uma casa vazia... tenho medo de acabar só...
Aquela, ali no chão, não posso ser eu!...

quarta-feira, julho 13, 2005

Noite de Festa

Por agora, acabaram-se as avaliações… Mais exames, só em Setembro. Os meus colegas resolveram festejar o seu sucesso em Faro. Convidei a Liliana para vir comigo. Inicialmente, ficou relutante com a perspectiva de pedir aos pais para ir, mas acabou por dizer-lhes que ia dormir a casa de uma amiga. Meti-me no carro com ela e rumei ao Algarve.
São três da madrugada… A discoteca está cheia! Música techno… Luzes que dançam em contacto com o fumo libertado pelos cigarros e por outras substâncias “fumáveis”… Tenho sede… Apetece-me um vodka, no entanto, sei que vou ter de conduzir ainda hoje, portanto peço um sumo de maracujá. A Liliana não me parece muito animada. Enquanto espero pelo sumo, vejo um rapaz que cambaleia chegando-se a ela. Discretamente, aproximo-me dela e afasto-a dali. Aproximo a minha boca do ouvido dela e tento colocar a minha voz acima das batidas da música, perguntando-lhe:
— Estás cansada? Queres ir embora?
Ela olha para mim como que a pedir desculpa e acena que sim com a cabeça.
Bebo o resto do meu sumo e dirijo-me com a Liliana para a saída da discoteca. Entramos no carro e ela agradece-me, depositando um beijo suave sobre os meus lábios. Sorrio, insiro a chave na ignição e digo-lhe que também não estava a gostar do ambiente.
Meto o carro pela auto-estrada rumo a Lisboa. Olho para o meu lado direito… A Liliana dorme… Fica tão bonita a dormir!... A cabeça ligeiramente descaída para a esquerda, os seus belos olhos fechados e os seus lindos cabelos castanhos a taparem um pouco da sua bochecha direita. Podia ficar eternamente a olhar para ela… Viro-me para a frente e continuo a conduzir calmamente o meu Opel Corsa em segunda mão.
Vejo um movimento estranho à minha frente… Esfrego os olhos para ver melhor. Aproxima-se velozmente. Subitamente apercebo-me do que é! É um carro de faróis apagados que circula direito contra mim! Travo a fundo e dou uma guinada para a direita! O carro derrapa e eu viro tudo à esquerda para tentar compensar… Perco o controlo do carro… Sinto o carro a capotar. Enquanto estou ali às voltas tudo parece passar-se em câmara lenta…
Sinto uma pancada na cabeça…
Escuro…

sábado, julho 09, 2005

Algo mudou em mim

Finalmente tenho alguém, por estas bandas, a quem eu posso chamar de amiga. Ela chama-se Marta e é minha colega de curso lá na universidade, é ela que me tem ajudado a apanhar o ritmo da cidade e foi também quem me iniciou nas minhas saídas à noite.
E foi numa dessas noites, que algo mudou em mim.
Combinamos que eu ia passar o Fim de Semana a casa dela para estudarmos e para sair.
Foi uma noite normal, alguns copos, muita conversa, pessoas novas. E foi uma dessas pessoas novas que ela levou para casa.
Fiquei no sofá da sala, mas ao meio da noite tive de ir à casa de banho, passei pela porta do quarto dela que estava semi aberta. Não sei explicar, mas acho que o fiz sem pensar e olhei, eles estavam a ter relações. Quis seguir em frente, não queria estragar o momento de ninguém, mas se o pensei não o fiz. Talvez tenha sido o álcool ou a curiosidade quem nunca fez sexo. Fiquei a olhar, a ver aqueles dois corpos a trocar carinhos mesmo que fossem só carinhos de uma noite. Sempre que olhava para a cara dela era a minha que eu via, cada gemido, cada gritinho era como se por mim fosse dado.
Voltei para o meu sofá, com a sensação de que tinha tido o meu primeiro orgasmo, mas como podia ser? Como podia eu ter prazer só de olhar para eles?
Passei a noite a pensar no que se tinha passado, mal fechava os olhos via e revivia tudo de novo e isso dava-me prazer, queria ver mais, queria poder entrar no quarto dela e ficar a olhar para eles sem participar, só a olhar, a contemplar cada movimento deles, saborear o cheiro, o som.De manhã quando acordei, voltei a correr para casa, não queria que ela me visse, acho que tinha chapado na cara tudo o que eu visto e imaginado naquela noite. Eu sabia que tinha de inventar uma desculpa qualquer, para explicar o porquê da minha “fuga”. Mas mentir era mais simples do que olhar para ela com a vontade de lhe dizer, que a queria voltar a espreitar a ter sexo com alguém.

quinta-feira, julho 07, 2005

Encontros

Arranjei emprego... a minha irmã ajudou-me nessa tarefa e agora estou a trabalhar numa agencia de publicidade, atendo os telefones, faço alguns recados na rua e ajudo em contactos e nas coisas que me vão pedindo. São todos simpáticos para mim.
Trago almoço todos os dias, ajuda-me nesta árdua tarefa de conseguir sobreviver com o parco dinheiro que ganho em relação aos gastos. Depois com o tempo que me sobra vou dar uma volta ao centro comercial que fica mesmo aqui em frente, olho as vitrines, compro um gelado ou bebo um café, o tempo acaba por passar e volto de novo ao escritório.
Um dia destes enquanto circulava pelos corredores do centro alguém me chamou pelo nome a que já não estava habituada a ouvir:'-Maria...'
Detive-me surpresa e ao mesmo tempo apreensiva...se me tratava assim é porque era alguém do meu 'passado'...ainda pensei em fazer-me de parva e dizer que devia estar a confundir-me com alguém, mas depois de o ver, com um ar meio perdido...afável...deixei que se aproxima-se, acabei por ouvir num relato meio atabalhoado que tinha perdido a mulher, recebi ainda um pedido de desculpas por me ter deixado sózinha no restaurante da última vez que nos vimos...
Lembrei-me logo dele, durante todo o tempo em que tinha levado aquela vida ele tinha sido a única pessoa que me pagara apenas para estar com ele a conversar, tinhamos ido jantar, coisa a que não estava habituada que fizessem, geralmente era paga para estar fechada dentro de um quarto de hotel ou até mesmo dentro de um carro , nunca para andar a desfilar em frente a outras pessoas. As pessoas que me procuravam demonstravam desde logo o pouco á vontade de serem vistas comigo em público, por isso me lembrei logo do António...tinha sido diferente...
Aceitei o café e ouvi o que ele me quiz contar, lamentei e não tive coragem de o aconselhar a não perder o filho...se eu fazia o mesmo...apesar de muita coisa ter mudado na minha vida, ainda não sentia confiança para ir buscar o meu...
Deu-me o seu número de telefone, queria compensar-me daquela saída repentina da última vez...já lá iam...5 anos...tanta coisa mudara nestes últimos tempos...decidi contar-lhe que a minha vida agora era outra, que já não fazia o que fazia antes. Abraçou-me num repente...deixando-me boquiaberta...sorriu e disse que estava feliz por mim...
Enquanto me dirigia para o escritório pensava no António e dava-me conta que gostava do geito dele...poderia ser um bom amigo, alguém com quem eu poderia ir ao cinema , ou até mesmo beber um café á beira mar...alguém que me podia aconselhar e que eu até gostava de ouvir...
Lembrei-me do Pedro...possivelmente iria ligar-me este final de dia para passar lá em casa...o Pedro era alguém que também conhecia o meu passado e que costumava de tempos a tempos passar lá por casa e acabar por ficar a noite comigo...o Pedro apenas me via dentro de casa...nunca saimos...nunca recebi um convite para sair...nem ao menos um jantar...mas falarei dele numa outra altura...

terça-feira, julho 05, 2005

Quotidiano


"Caminho" por Alexandra Natálio Posted by Picasa

Os dias continuam os mesmos. Uns com mais sol outros com menos sol mas cada dia que passa é o reflexo do outro... Preciso de mudar! Sair da rotina ou vou dar em maluca!!! Sem me dar conta entrei num circulo que todos os dias percorro, chegando no final ao ponto de partida para voltar a percorre-lo no dia seguinte... dou voltas e mais voltas e não saio do mesmo lugar... fiquei presa num tempo que já não me pertence mas do qual não consigo sair...

Fiquei muito feliz com a escolha para o novo porteiro. Ou porteira neste caso.
Se havia alguém que mercia essa lugar era a D. Margarida. Continuo a ter saudades do sorriso do Sr. José mas gosto de ver a D. Margarida e ouvir o seu "Bom Dia" todas as manhãs.

A Rita [vizinha do 3º dto] convidou-me para uma entrevista no seu programa na rádio. Não a conhecia ainda, parece simpática. De inicio fiquei apreensiva mas resolvi aceitar o convite. Não sei muito bem o que terei eu de interessante para falar... mas a Rita deve saber o que está a fazer.
Ficou de me dizer o dia que irá ser a entrevista e combinar um dia para falar-mos um pouco sobre o meu percurso artistico e nos conhecer-mos melhor no sentido de poder preparar o programa.

Já não vejo a Marilia à algum tempo... Gostei muito de conversar com ela e acho que nos podemos tornar boas amigas. Vou estar atenta para ver se a encontro no prédio para combinar-mos um chã. Na nossa primeira conversa fiquei com a sensação de que me queria contar alguma coisa... alguma coisa que carrega à algum tempo e que começa a pesar-lhe no olhar. Espero que consiga libertar-se e falar com alguém, penso que está a precisar.

[a campainha]

A minha filha Aurora veio visitar-me, continua linda... já sentia saudades do seu abraço.

segunda-feira, julho 04, 2005

Ausência

Viajei.
Tínhamos acabado de nos mudar para o prédio quando me ligaram dum jornal perguntando se era mesmo a jornalista que estavam à procura. Estavam a fazer uma co-produção com um canal televisivo. Queriam artigos sobre a Palestina. Iriam ao ar uma vez por semana. Queriam-me para esse trabalho por saberem que falo árabe e que meu marido é palestiniano. Disse-lhes que lhes responderia mais tarde, mas claro que já sabia que ia aceitar. Há mais de dois anos que o Nassim não via a família. Eles ainda não tinham conhecido o nosso filhote. Era uma óptima oportunidade. Mesmo sendo a Palestina, parte da nossa família está lá. Falei com meu marido. Ele ficou um pouco apreensivo por causa do restaurante que estava abrir aqui, motivo pelo qual saímos de Londres. Mas as saudades eram tantas, que não demorou a decidir ir comigo também.
Deixámos o prédio, a nossa nova casa, e fomos.
A viagem para a aldeia do Nassim é cansativa. Comprámos um bilhete de avião até Aman, na Jordânia, e o restante caminho teve que ser feito de carro. Passámos a fronteira para Israel,sempre muito bem controlada. O muro, aquele maldito muro. Aflige-me só de vê-lo. Ainda bem que o Francisco estava a dormir, não queria que ele visse esta cena. É pequeno demais o meu filhote. Um muro gigante que separa os restos de Palestina do resto do mundo. Estão cercados ali. Se alguém quer entrar, tem que pedir autorização à grande Israel. Somos obrigados a passar pelos soldados. Somos obrigados a deixá-los fiscalizar tudo. É frustrante. Passamos a fronteira. Levámos mais umas horas a chegar à aldeia. Aquele muro aumenta a distância de tudo.
Por fim, chegámos. A família do Nassim é muito hospitaleira, sempre que lá fui receberam-me muito bem. Quiseram abraçar o pequeno, que só conheciam em fotos.
Foi um mês muito bem passado, apesar de tudo. E o meu trabalho correu muito bem. Gostaram tanto, que agora trabalho como jornalista do canal de televião.
Regressámos a casa e aí soubemos da morte do porteiro. Fiquei triste por saber da sua morte, mesmo não o conhecendo bem. Tinhamo-nos cruzado pouco, mas achara-o simpático. Agora é uma porteira, Margarida, se não me engano. Pareceu-me igualmente simpática.
O Nassim foi ao restaurante ver como estavam as coisas. Eu fico a preparar o jantar.
Foi bom ver a família, mas é bom regressar.