terça-feira, maio 31, 2005

Recomeçar...

Tenho algum dinheiro de parte...e começo a andar cansada de tanta falta de amor, já não consigo vender o meu corpo como ao principio, depois de irem embora passo mais de uma hora debaixo do chuveiro, como se a água pudesse limpar todos os momentos que partilhei, as vontades que fiz. Queria era esquecer a cara de quem vai passando por aqui mas talvez um bom copo de vinho tinto me ajude.
Tenho pensado tanto no meu filho nestes últimos dias, deve estar um homem...já me deve ter esquecido...
Entro no quarto e abro as portas do roupeiro, de dentro tiro dois sacos de viagem que abro e deixo em cima da cama. Sento-me no chão a ganhar a coragem que sei que preciso de ter...escolho as roupas e encho os sacos o mais lentamente que posso, como se assim pudesse voltar atrás na minha decisão. Depois de bem cheios, são colocados no hall de entrada. Volto ao quarto e deixo-me cair em cima da cama ainda por mudar...preciso de dormir...

segunda-feira, maio 30, 2005

Amor e mistérios... coisas da vida

O inspector Segredo anda por aí. Pensava eu que a investigação tinha sido encerrada mas, pelos vistos, tal não aconteceu. É claro que estou disponivel para quaisquer inquisições sobre o caso embora, não possa adiantar grande coisa para além do que já lhe contei, também eu estou curiosa por saber o que aconteceu, realmente.
Tenho andado a tentar localizar o sítio onde vi aquela foto igual à do sr. José e, acabei por me lembrar que a vi, num dia em que estava a limpar o patamar da cave e vi surgir o sr. João Escuro, com passinhos hesitantes, a olhar para trás, por cima do ombro, como se viesse fugido de alguém ou de alguma coisa. Parou, especado, na minha frente, como se tivesse visto um fantasma. Abriu a porta com tal pressa que as chaves lhe cairam. Foi nessa altura, quando se baixou para as apanhar, que vi a foto numa moldura dourada,colocada sobre uma pequena mesa que parecia um altar. Fechou a porta, com tal rompante, que parecia estar a puxar uma pedra tumular sobre ele. Este pensamente causou-me um arrepio porque associei-lhe, logo, a ideia dos vapiros que fogem para o seu esconderijo mal o sol nasce!

Gostei muito de ver o modo como a menina do 2º A corou quando se encontrou com o moço que anda a estudar para médico! Já me tinha esquecido como são as emoções naquelas idades... tudo tão urgente, tão importante, tão forte, tão arrebatador. Como gostaria que me acontecessem momentos destes!... Bem sei que o meu tempo passou, que o deixei escorrer por entre os dedos... Fiz as minha opções... paciência... tenho de pagar por elas!

Estou apreensiva com o inquilino do 6ª dto. Aquelas andanças esquisitas, as companhias, os amigos... claro que, neste prédio, todos têm a liberdade de serem e usarem os apartamentos como quiserem... De mais a mais quem sou eu para reparar no modo de vida de cada qual?!... Mas, tinha começado a sonhar que podia criar a minha filha num local onde lhe pudesse ensinar a importância do amor (antes de tudo). Concordo que sexo também é fundamental e,num contexto amoroso, não há limites para a imaginação ( desde que os parceiros estejam na relação em planos de igualdade).

domingo, maio 29, 2005

Liliana e o misterioso rapaz do elevador

Ali estava eu,comodamente sentada à escrivaninha,a acabar o trabalho de casa de matemática,quando entra Liliana,a minha irmã.
Ali estava Liliana,a porta atrás dela brutalmente escancarada,o cabelo em total desalinho.A cara estava vermelha,completamente vermelha,como se tivesse acabado de dar a volta ao mundo em meia hora.Afogueada,respirava com visível dificuldade.
Vê-la ali,especada à porta,naquelas condições,fez despertar em mim uma estranha espécie de amor fraternal,uma doce compaixão pela minha irmãzita,que tantas vezes conseguia ser mais infantil do que eu.
-Liliana,que aconteceu?Sentes-te bem?Que andaste a fazer?Lembraste-te de subir as escadas em vez de apanhar o elevador,foi?
-Não-disse ela.Fechando a porta atrás de si,deixou-se escorregar para o chão,com um ar devastado.Juro que,em catorze anos de convivência com Liliana,nunca a tinha visto assim,tão estranha,tão ansiosa,tão...afogueada.
Abandonando os monómios e os polinómios e as equações de primeiro grau,ajoelhei-me ao lado dela,aproximando-me da sua cara vermelha e inchada.
-Lili,que se passou?Parece que viste um monstro,ou,sei lá,que vieste a correr desde o Algarve até aqui.Sentes-te bem?Queres alguma coisa?Um copo de água?
-Não.
Pousei a minha mão no seu ombro,e ela sorriu.Um sorriso leve,tímido,ingénuo.Os seus olhos brilharam,com uma leveza romântica,um brilho afectuoso.Passou-me a mão pelo cabelo.
-Ah,Madalena,se soubesses quão bom é ser-se adolescente!
Franzi o sobrolho.«Eu SOU adolescente»,pensei.Mas que diabo deu a esta rapariga,que já nem sabe a quantas anda?
Tentei mudar de atitude,assumindo uma posição ligeiramente mais maternal.
-Sabes,podes contar comigo,podes confiar em mim.Eu sou tua irmã,mas também sou tua amiga.Começas a deixar-me preocupada.Primeiro entras de rompante com ar de quem acabou de correr a meia-maratona,depois atiraste para o chão a sorrir.Talvez fosse altura de procurares um médico,ou de falares comigo.
Ela riu-se.
-Ora,não te preocupes,eu estou bem.Estou bem, a sério.Podes voltar para a tua matemática,e para as tuas equações,e as fracções e as potências e...podes acabar de estudar.Vá,vai lá,que eu vou ficar por aqui a...sonhar só um bocadinho.
«Sonhar só um bocadinho»?!Ora,a minha irmã costuma ser a«Miss Realismo»,a«Sra.Pressas e Impaciências»,e agora vai...sonhar?
-Liliana!-exclamei-é melhor contares-me o que é,olha que não etsou a gostar nada disto,a sério!
Ela riu-se.Levantou-se do chão,ajeitou o cabelo.Sorriu.Sim,agora,com o cabelo no lugar e um sorriso pequinino no rosto,parecia mais ela.
-Sabes,hoje eu,eu...eu apanhei o elevador quando vinha da escola.
-Sim,apanhaste o elevador.É o que fazes todos os dias.Eu também o faço,e não me sinto nos píncaros da Lua por isso.
-Espera,deixa-me acabar-parou para inspirar-ora,quando eu ia a entrar em casa,não é que aparece...apareceu o....o...
-O...
-O novo inquilino-sorriu.
Neste ponto,a cara de Liliana parecia uma bolacha-maria gigante,com um grande sorriso nela estampado. Comecei,finalmente,a associar tudo na minha cabeça,e a compreender.
-Ah....-exclamei.
-Ah...-disse ela.
Ah,com que então,tínhamos em mãos um assunto de calças.Sim,agora compreendia.
-Ah,então...estás apaixonada!
Ela olhou-me,com uma expressão de puro terror no rosto.Para estas raparigas,puramente práticas e 100%racionais,o amor parece ser o maior perigo,a maior armadilha da vida.
-Não!Eu só o vi uma vez.Achei-lhe piada,só isso.Parece tem para aí a minha idade,e levava um livro de anatomia debaixo do braço,por isso deve estudar medicina.Pareceu-me ser bom rapaz...acho que podemos ser amigos.
Deitei-me na cama,apoiando a cabeça com as mãos.E sorri.Ah,os jovens de hoje em dia!
-Ah,foi?
-Foi.Só isso.
-E então falaste com ele?
-Hm...não propriamente.
-Não propriamente?
-Não.
-Hm....que sabes sobre ele?
-Nada.
-Nada?
-Nadinha.
-Mas nada mesmo?Nada de nada?
-Oh Madalena!
-Hm...estás apaixonada!
Ela atirou-me com uma almofada à cabeça,a mesma expressão assustada no rosto.
-Madalena!Já disse que não estou!Achei-o giro,mais nada.Eu não sou personagem daqueles romances lamechas que tu lês.Sou uma rapariga de carne e osso.Um amor platónico morre logo ao primeiro incêndio.
Sorri,mais para mim própria do que para ela.A minha irmã estava apaixonada.Sim,apaixonada.Confesso-nunca julgara que fosse algo que acabasse realmente por acontecer.Ela era sempre tão fria,tão controlada.Tudo no seu sítio,a vida escrupulosamente arrumada,nem um fio de cabelo fora do lugar.E agora,isto.Este rapaz.Sim,a Liliana estaá apaixonada.
Ou é o fim do mundo,ou o começo de uma nova era...

sexta-feira, maio 27, 2005

A porteira (2)

Resolvi contar toda a minha história. Quero recomeçar a minha vida, nesta nova casa, como se tivesse renascido com a minha filha. Preciso de deixar tudo para trás, lavar a minha vida...
Quando chegámos ao Algarve, eu e o Quim, instalámo-nos num pequeno apartamento e, começámos a frequentar discotecas, todas as noites. Ele comprava-me roupa com que, a principio, me sentia esquisita. As saias os tops, as calças...tudo muito curto, justo e brilhante. Depressa comecei a notar que os homens me olhavam de forma descarada. Bebíamos e dançávamos toda a noite para no dia seguinte dormirmos toda a manhã ou ir para a praia apanhar sol. Parecia-me perfeito aquele tipo de vida... até aquela noite em que o "amigo" do Quim nos acompanhou a casa... A partir daí rara era a noite em que não aparecia ou "amigo" novo ou antigo (às vezes mais do que um)... Se as coisas corriam mal, e voltávamos sozinhos, batia-me e dizia as piores coisas... Quando as marcas, no meu corpo, revelavam indícios dessas tareias, não saíamos durante dias, pedia desculpa, culpava as bebedeiras e, tratava-me como uma princesa, (ele sabia ser encantador!)
Um dia, em que tinhamos voltado com mais um dos seus "amigos". reparei que não havia preservativos também não havia dinheiro, por isso, resolvi arriscar. Quando descobri que tinha engravidado, escondi o facto enquanto me foi possivel (tinha medo da sua reacção). No dia em que soube bateu-me, novamente, e arrastou-me para casa de uma mulher que ele sabia resolver essas situações. Era demasiado tarde, com mais de cinco meses, a mulher não se arriscou a fazer-me o aborto. Levou-me para casa dos meus pais e aí me deixou até ao dia em que os gemeos nasceram. Nesse dia apareceu no hospital. Disse-me que tinha arranjado quem ficasse com eles. Duas tias afastadas, uma das quais tinha acabado de ficar viúva e sem filhos, tinham-se prontificado a tomar conta dos gémeos. Conhecia, vagamente, as senhoras. Moravam num palacete decadente, com um jardim bem-tratado, perto do bairro onde eu tinha nascido. Não se lhe conhecia família a não ser o Quim (sobrinho afastado).
Levou-me, com ele, novamente e voltámos para o Algarve para a nossa antiga vida. Via os miúdos, raramente, quando íamos ao Porto. Doía-me vê-los fugir e esconder-se atrás das "mães"... Enfim, estavam bem tratados e, as senhoras gostavam muito deles, de tal modo que, por diversas vezes pediram que as deixassemos adoptá-los. O Quim recusava, sempre. Achava que o legítimo herdeiro era ele e não os meus filhos que, embora com o nome dele, podiam ser de qualquer um.
Cinco anos depois voltei a engravidar (ainda hoje não sei como aconteceu). Sentia-me só. O Quim passava, cada vez, mais tempo fora de casa. Quando descobri, voltei a esconder a gravidez. Estava disposta a tudo para ficar com este filho. Consegui convencê-lo a voltarmos para o Porto. Depois da joana nascer, ele ficava-me com ela enquanto eu procurava os clientes na rua. Assim decorreram quatro anos até ao dia em que saí de casa para apanhar um combóio que me afastasse dele e daquele tipo de vida.
Quero voltar a estudar (sempre quis) mas, quando o dizia ao Quim, ele ria-se e dizia "Para que precisa uma puta de estudos?!". Eu concordava ..."para quê?!" Acabei por descobrir a resposta. "para melhorar a sua vida e deixar de ser puta!"
Ouvi falar de "unidades capitalizaveis". Parece-me que os alunos estudam uma determinada matéria e, quando se sentem preparados, pedem ao professor para lhes fazer um exame sobre essa matéria. Vou à escola informar-me melhor.Agora que tenho uma casa, tenho um trabalho e, tempo. Depois de limpar as escadas, posso estudar na portaria... Tenho de arranjar quem me fique com a Joana enquanto vou às aulas. No prédio há algumas meninas simpáticas que talvez me possam ajudar. Aquele rapaz do 10º andar, (parece-me que anda a estudar para médico) , talvez me ajude quando eu tiver alguma dificuldade...
Antes, tenho de resolver mais dois assuntos : a adopção dos meus filhos e o mistério da família do sr. José.
O Quim morreu, num acidente, há dois meses (estava alcoolizado, parece-me). Agora posso permitir que as "mães" dos gémeos os adoptem. Talvez um dia me perdoem e, então, tenhamos oportunidade de nos conhecermos e, quem sabe, amarmo-nos...
Quando conheci o Sr. José, no Porto, confessou-me que tinha ido procurar um grande amor. Corou, ao dizer que não tinha qualquer contacto... Desse amor, apenas a foto de uma mulher e um filho, que ela tinha levado na barriga e, que ele nunca tinha conhecido. De vez em quando, durante os últimos 20 anos, ía ao Porto... podia ser que por acaso...
Ao arrumar as coisas do porteiro encontrei esssa foto no meio de um livro, amarelecida e gasta. Parecia-me já a ter visto... sim, tinha-ma mostrado durante o nosso primeiro e ùnico encontro mas... não... vi-a noutro sítio qualquer, neste prédio, enquanto limpava as escadas... Não podia ter visto esta porque não estava exposta e, a outra estava num bonito caixilho que destoava do resto da mobília. Só podia ter sido num dos apartamento, enquanto limpava um patamar e uma porta se abriu... não me lembro onde aconteceu mas não foi há muito tempo...

segunda-feira, maio 23, 2005

a nova porteira

O meu nome é margarida, tenho 33 anos. Convidaram-me para substituir(?) o sr. josé. Precisava de algo do género para tentar endireitar a minha vida. Troquei o quarto da pensão manhosa onde vivia pelo r/ch esquerdo. De um pequeno quarto com wc ao fundo do corredor para um apartamento...parece-me um sonho. Imagino que é um palacete! Tive de arrumar as coisas do sr. josé com medo que a minha filha as partisse. Não sei se alguém as virá a reclamar por isso as guardei num caixote na arrecadação. Gostava de manter tudo como estava em memória ao único homem que me ajudou sem nada pedir em troca mas a joana,a minha filha de 5 anos, parece um gatinho daqueles que estão presos num gatil e de repente são adoptados e vão habitar para uma casa de família, tropeça em tudo...
Tenho mais dois filhos, gemeos de 10 anos que vivem no Porto. Não me amam e eu, também, não os amo. Sinto-me mal quando penso isto... Não os conheço...não sei de que gostam... não os criei...pari-os, apenas. Não amamos apenas porque os trazemos 9 meses na barriga mas porque os vemos crescer e crescemos com eles. Daria a vida pela joana...
No ano passado quando chegava a casa, depois de mais um dia de "trabalho", fui dar com o pai da minha filha a molestá-la. Não tive medo da pancada, nem da sua bebedeira dele, nem da falta de dinheiro que não tinha nem das dificuldades que teria de passar. As desculpas de homem bebado também não me demoveram. Vesti a menina e apanhámos o combóio para Lisboa. Na mala, apenas, o dinheiro que tinha ganho nesse dia e um bocado de papel com a direcção de um cliente- um cliente especial que tinha pago, apenas, para conversar. Acabei à porta deste prédio com um emprego de "mulher de limpeza". Não queria a minha antiga vida, tinha-o decidido no momento em que saí porta fora com a minha filha pela mão.
Nasci numa família numerosa num bairro típico do Porto. Os meus pais e a minha irmã mais velha trabalhavam numa fábrica lá perto. Saíam de manhã para voltarem à noite. Comecei, cedo, a cuidar dos meus irmãos mais novos. Tinha de sair da escola e correr para casa para lhes dar o almoço e fazer todas as tarefas caseiras. Cresci depressa. Das brincadeiras com as minhas amigas rapidamente descobri o interesse que despertava nos rapazes. No final do 9º ano apaixonei-me por um jovem mais velho. Tinha carro, mota, frequentava as imediações da nossa escola mas ninguém lhe conhecia uma ocupação. Os meus pais opuseram-se ao namoro, tentaram fazer-me perceber que ele não era boa peça. Quanto mais eles se opunham mais eu me interessava por ele até que, no ínicio das férias grandes, fugimos para o Algarve. Parecia-me um sonho... Alugámos um pequeno apartamento e,durante as duas primeiras semanas, sentia-me como uma princesa com o seu principe num reino encantado.
Um dia, o Quim voltou com um amigo tendo saído de seguida para comprar cerveja. Foi o "amigo" que me explicou o que esperavam de mim. Nem queria acreditar. Recusei... discuti... barafustei... Parecia-me impossível!... O meu sonho tinha chegado ao fim para me iniciar num pesadelo.

domingo, maio 22, 2005

O amor de Ernesto Saraiva pelo 6º andar direito

Olá boa noite. Chamo-me Ernesto Saraiva e celebrei recentemente o contrato definitivo de compra e venda do 6º andar direito. Tenho 52 anos. Sou casado há 30 anos. Tenho um filho de 25 anos. Sou director no departamento jurídico de um banco. Ganho bem. Muito bem até. Aos fins de semanas, se não venho para aqui, vou caçar com os meus colegas para o Alentejo. Gosto de sentir a morte nos meus dedos. Não é só um desporto. Exige um gozo pessoal matar pombos e coelhos. Imagino-me nessas alturas a aniquilar algo maior. Tigres. Ursos. Panteras. Onças. E aquilo não é para qualquer um. Tentei levar o meu filho à caça. Ele não gostou. Ele não sabe o que é bom. Suspeito até que não é só ao nível do desporto e da competição que possuímos os mesmos gostos. A culpa é da mãe. Mas o que hei-de fazer agora. Foi ela que o criou. Fui eu que deixei que ele crescesse assim. Também já não o suporto. Mas pronto. A minha mulher não conhece este apartamento. Adquiri-o para as minhas escapadinhas. Gosto de foder em paz. Já estava a ficar farto do carro. Os joelhos sempre esfolados. O suor do sexo entranhado no corpo. Quando chegava a casa receber um beijo da minha mulher casta. Sim. Casta. Nunca quis ter uma foda daquelas que deixa qualquer mulher zonza. Preferia sempre a posição que era a mais confortável e a menos divertida. Dizia ela que não era mulher para fazer essas coisas. Um homem não é de ferro. Este apartamento é o concretizar de um sonho. Um sonho em que homens e mulheres se entrelaçam em bacanais doidos e desprovidos de inibições. Começam sempre com sexo oral. Gosto de ser bem chupadinho. Com força. Com mordidelas constantes. Depois a viagem pelo rêgo do cu. Acabando na vagina. Onde tudo começa para todos nós é onde eu gosto de acabar. Claro que tenho de variar. Conhecer as particularidades de cada mulher excita-me tanto que é isso que me faz continuar. É isso que me levou a cometer esta pequena loucura. Comprar este magnífico apartamento. E como é que ele é por dentro. Por agora não tem muitas coisas. Também acho que não vou acrescentar-lhe muito mais. Tenho um colchão no chão do quarto. Papel higiénico ao lado para prevenir qualquer fluído corporal que se intrometa no espaço exterior relativamente aos nossos orifícios também eles corporais. Tenho na casa de banho umas toalhas. Essas furtadas dignamente de um de entre os vários hoteis em que permaneci. Quer por razões de negócio. Quer por razões de prazer. A cozinha é a divisão mais apetrechada da minha casa prazerosa. Tem um frigorífico. Um microondas. Uma mesa. Bancos. Quatro dessa espécie de mobília. Comida. Muita. E pronto. Se o apartamento não fosse meu e entrasse aqui neste exacto momento diria que seria a cova de um eremita qualquer dos tempos actuais. Mas é o ideal para mim. Agora sim. Sou um homem completo. Tenho duas vidas paralelas. E nada me escapa agora.

sábado, maio 21, 2005

Encontro agradável...

Acabo de escrever as últimas linhas do trabalho que tenho que entregar 2ª feira ao professor de Psicologia Médica. A ironia é que o trabalho é sobre a motivação e eu não tenho qualquer tipo de motivação para estar a trabalhar. No entanto, já o acabei… Uma sensação de alívio percorre-me a mente enquanto mando imprimir o trabalho. A folha de papel sai lentamente da impressora, com um barulho maquinal como todas as impressoras velhas fazem… Trouxe esta da casa dos meus pais. Já tem os seus anos, mas ainda funciona. Enquanto as folhas vão saindo da impressora começo a pensar no que vou fazer a seguir. Ainda tenho que estudar Anatomia, mas preciso de fazer um intervalo. O melhor é ir dar uma volta. De qualquer forma, ainda tenho que encadernar o trabalho… Junto as folhas impressas numa capa de plástico verde, pego na carteira e nas chaves e saio de casa. Enquanto tranco a porta, ponho-me a pensar se não terei a sorte de voltar a encontrar a rapariga do outro dia. Parece que se chama Liliana. Ouvi o seu nome no meio de uma discussão entre a mãe dela e a irmã, quando passava pelo 2º andar no dia em que faltou a luz e tive que ir pelas escadas. Entro no elevador e carrego no botão do R/C. O elevador começa a descer suavemente e eu quase que rezo para ele parar no 2º andar. Quero ver outra vez aqueles olhos arrebatadores! Quinto andar… Quarto… Fecho os olhos… Sinto um baque e o elevador pára com um safanão. Abro os olhos e olho para o mostrador digital. O número 3 brilha a vermelho. A porta abre-se e entra o casal do 3º direito. A Rita diz “Boa tarde!” com um sorriso sincero. O João olha para mim e diz: ”Então? Futuro colega! Como vai a Anatomia?”. Enquanto conversamos, saímos do elevador e posteriormente do prédio. Continuamos a andar e a conversar quando a Rita me diz: “Tens muita coisa para fazer? É que podes vir ali tomar um café connosco!”. Eu sorrio e aceito de bom grado. Sentamo-nos à mesa e falamos da vida de estudantes universitários que eles recordam com alguma nostalgia e que eu começo a viver agora. Acabo por combinar com o João na 2ª feira de manhã ir ao serviço dele para observar algumas consultas. Quero aproveitar para me ir habituando ao ambiente nos hospitais. Pagamos as nossas contas e despedimo-nos antes de nos separarmos. Tenho que ir encadernar o trabalho e depois voltar para casa para estudar Anatomia. Só queria encontrar a Liliana no elevador…

sexta-feira, maio 20, 2005

O(a) substituto(a) do porteiro

Tenho proposto a vários vizinhos que se convide a D. margarida, para ocupar o lugar de porteiro deixado vago com a morte do sr. josé que parecia demonstrar "um fraquinho" por ela. Até agora não tenho ouvido vozes discordantes.
Continuo a vê-la enquanto limpa as escadas, rega as plantas da entrada ou nos abre a porta, se entramos com os braços carregados de embrulhos. Recebe-nos com um "bom dia!" imperceptível e um sorriso timido de quem já passou muito. A miúda (Joana, parece-me que é o seu nome) sempre agarrada às saias da mãe. Se o silêncio triste da mulher nos incomoda o da criança magoa-nos. Que se terá passado com estas duas criaturas? Que passado as terá magoado, que histórias terão nas suas curtas vidas?
Como sabem, o porteiro tem direito a habitar o r/ch esq. Parece-me que continua sem aparecer ninguém que se diga próximo ou familiar do sr. josé portanto, quando o inspector segredo der como encerradas as investigações, acho que devemos convidar a D. margarida para o lugar. Quem melhor do que ela para perpectuar a memória do nosso querido porteiro?
Hoje vim, apenas, pelos gatos. O comedouro continua cheio (devem ter saudades da dona). Sentei-me no chão, quieta, a ver o que ia acontecer. Passado algum tempo aproximaram-se dois que vieram roçar-se nas minhas costas mas, quanto tentei virar-me, correram a esconder-se. Aquietei-me mais alguns minutos e voltaram a aproximar-se para me darem turrinhas nas pernas. Desta vez deixaram tocar-lhes, levemente, no dorso (parece-me que são duas gatas, pretas, de pelo brilhante e belos olhos verdes)...
Aproveito para dizer que a ideia, de almoçar a bordo de um barco à vela, me pareceu excelente. Não como carne, peixe ou quaisquer outros bichos mas aceito uma salada, muita fruta e "sang du marin", também. Posso levar umas trouxas de ovos?

Saída no Domingo

Decidi que afinal não faço o almoço. Aliás, almoço faço, altero é a forma. Domingo saímos para o Mar. Às 11:30 na Doca da Marinha, ali ao lado da Vela Latina. A embarcação é de fácil reconhecimento, madeira escura, dois mastros e muita alegria. Venham! Não é preciso saber nadar, há coletas e espaço para nos espreguiçarmos ao Sol. Ambientamo-nos, conhecemo-nos, aprendemo-nos. Aparelhamos e rumamos Tejo adentro, a vela de lona quadrangular içado no Ouriço. Gostava de subir a nascente, aproveitar para descansar a vista na amplitude do Tejo ali naquela zona. A lezíria... O rio é tão grande ali que quase não lhe vemos o fim, é uma rio quase mar em horizonte. Talvez encalhemos nas ostras, ou nalgum baixio. Nada de grave e até divertido de resolver. Venham! Saltamos à proa, agarrados no brandal de Estái, num desiquilíbrio de trapezista. Teremos peixe bom na mesma, saladas, morangos lavados ainda com o pé. Cerejas talvez. O azeite vem de Ponte da Barca. Puro, forte, do verdadeiro. E claro, sang du marin como dizem os Bretões, os mais valentes homem de Mar que conheço. Venham mais cinco e tragam um amigo também!!

quinta-feira, maio 19, 2005

Sinto a falta de um bom dia!

Pois é... sinto a falta do bom dia que o Sr José! era quase sempre a primeira pessoa
com quem me cruzava de manhã.
Penso que agora na reunião de condomínio irão falar sobre como resolver o assunto,
terão certamente de colocar um anúncio no jornal ou talvez alguém aqui do prédio
tenha algum familiar ou amigo interessado, é muito melhor se for uma pessoa com
algumas referências.
Não pude ir ao funeral, estava destacada para cobrir a entrevista a um pintor
conhecido cuja exposição revertia a favor de uma obra de solidariedade.
Sou fotógrafa de profissão embora a minha paixão seja a pintura.
Pinto na tela o que me toca o coração e deposito nos meus pincéis a tarefa de o
expressar tão bem como o sinto!
Sempre que tenho umas horas para mim é o que mais gosto de fazer, tenho um prazer
imenso em pintar… um dos meus temas é o mar, tento imaginá-lo bem perto de mim
e penso na tranquilidade que ele me transmite…só de pensar nisso até parece que sinto
o cheiro a maresia... a brisa nos cabelos… sinto-me leve…
Gosto de passear a beira-mar, descalça, sentindo a areia molhada e a rebentação
suave das ondas a molhar-me os tornozelos.
Por falar nisso acho que hoje é o que vou fazer, sair da cidade e ir até a beira-mar,
afinal de contas só tenho uma sessão da parte da tarde; são fotos de moda, para a
revista onde trabalho, uma revista feminina muito conhecida.
Quando regressar vou trazer algumas fotos desse mar para colocar em sitios estraté-
gicos, assim mato as saudades por algum tempo...

quarta-feira, maio 18, 2005

Histórias de mulheres de 40

Voltei ao meu estúdio. Por um lado tenho os gatos da vizinha para cuidar(deixou-me a chave debaixo do tapete) mas por outro precisava de estar só para pensar. Os gatos olharam-me desconfiados, enfiados no canto da marquise. Devem ser para aí uns 10. Com tempo consigo conquistar-lhes a confiança. Por hoje fiquei, apenas, algum tempo a observá-los. O comedouro ainda estava cheio de comida seca mas mudei a água.
Quando voltei, sentei-me na cadeira de baloiço com o cd do jorge palma... Tb eu me sinto "frágil", tb eu quero ir morar para o "bairro do amor"... Talvez este prédio seja o mais próximo desse bairro e por isso venho para aqui lamber as minhas feridas...
Depois do funeral, peguei numa chávena de chá e fui bater a casa da pintora (Alexandra- soube depois). Conversámos durante muito tempo, de tudo e de nada... Parecíamos velhas amigas. Ela, saparada há 5 anos, trocada por uma miúda que quase podia ser sua filha, nem por isso se mostrava amargurada.Eu efectivamente casada há 20 anos mas a sentir-me desamparada...Ela continua a levar a sua vida dedicada à pintura (a casa é uma verdadeira galeria, com quadros espalhados por todo o lado, da cozinha à casa de banho). Tem algumas coisas muito interessantes (a mim, que não percebo nada de correntes pictóricas, parece-me impossível que ainda não tenha sido descoberta!). Talvez não esteja verdadeiramente interessada em mostrar o seu trabalho. De contrário, movendo-se ela no meio artístico, dirigindo a pequena galeria na baixa, teria encontrado alguém interessado...não sei, isto é mera especulação, uma vez que, nada falámos acerca disto. Manifestei um especial interesse por uma tela pintada em tons muito escuros, com uma mancha vermelha que parecia a explosão de uma gargalhada. A associação ao "jeremias" do jorge palma foi tão forte que fiquei especada na sua frente. Ofereceu-ma. Continuo a achá-la muito bonita nas suas roupas alegres e descontraídas. Tem mãos especialmente belas, esguias que move continuamente (fala com elas). Parecem desenhadas, propositadamente, para uma artista que trabalha com as mãos.
Ainda não lhe falei muito de mim, uma vez que vim para este local na tentativa de me encontrar. Quando nos despedimo-nos as nossas mão tocaram-se levemente...
Vivo da magia de um abraço. Aconteceu há 4 anos e, foi de tal maneira mágico que ainda hoje não me consegui libertar... Não posso e, nem quero. Preciso dessa lembrança para levar a minha vida em frente. Talvez venha a discutir este assunto com a Alexandra...talvez ela ajude à minha libertação... talvez (tanta coisa)...

Rita chora

Fui sozinha ao funeral do sr.José...o João estava de serviço...
Senti-me tão. Conhecia muito mal aquele homem que foi a enterrar, mas simpatizava com ele, senti-me mal porque vi que estava sozinho no meio de caras estranhas, no meio de inquilinos e nada mais...não vi um único rosto que me fizesse crer que era familiar do sr.José, não ouvi ninguém dizer que era da sua familia...senti-me triste quando vi a senhora que faz as limpezas lá do prédio com um olhar ainda mais triste, via-se nutria alguma ternura pelo porteiro, senti-me triste pela maneira como aquele homem morreu e nem consigo imaginar porque razão e também porque eu tenho alguém, mas no fundo não tenho...

Vim para casa e fiquei deitada no chão sob a manta que esta junto à janela da sala, o Sebastião veio para a minha beira, percebeu que era eu quem precisava das festas...chorei mais por mim do que pelo sr.José e senti-me mal, pensei estar a ser egoísta, mas não consegui evitar...quero sair porta fora, atravessar o corredor e ir ter com a vizinha do 3º dto que ja me convidou...mas fui antes ao café.
Quando voltei para casa encontrei o aluno de medicina no elevador, perguntei-lhe que tal estava a correr o estudo, respondeu que era muito...fez-me lembrar o João no tempo em que estudavamos...
Abri a porta de casa, e fui recebida com um abraço...caramba1 Já não fazias isso há tanto tempo...

terça-feira, maio 17, 2005

Companhia para o chá

Foi ontem o funeral do Sr José. Poucos estiveram presentes e dos que estavam quase todos eram inquilinos do prédio. Vi algumas caras desconhecidas - provavelmente eram novos moradores com que ainda não me cruzei.
Não cairam lágrimas mas envolvia-nos um silencio absoluto. Todos os corpos carrefados de negro com os rostos ainda em choque com esta morte inesperada. Do céu choveram - durante todo o dia - as lágrimas que nenhum de nós conseguiu derramar.
Subi no elevador com uma mulher que não conhecia daqui do prédio - deve tratar-se de uma nova inquilina, uma das caras desconhecidas que vi no funeral.
Não falamos durante toda subida, no 5º andar saí. Despedimo-nos com um "Boa tarde" e o elevador continuou a subida.


Já em casa, sentada no sofá da sala, olho o céu carregado de nuvens escuras e deixo-me embalar pelo som da chuva a bater na janela. Não sei quanto tempo fiquei assim... pensando em como tudo é efémero, frágil e definitivo sem uma segunda oportunidade de voltar e continuar...

[toca a campainha]

Acordo dos meus pensamentos. Não esperava ninguém. Quem será?
Abro a porta e reconheço a mulher que subiu comigo no elevador. Tráz duas chávenas de chá.
- Boa tarde.
- Boa tarde. Ainda não nos conhecemos. Chamo-me Marilia. Mudei-me recentemente para o 11º frente. Desculpe aparecer de surpresa mas gostaria de fazer-me companhia num chã?
- Chamo-me Alexandra e um chá seria optimo.


Falamos durante horas. Parecia nunca se esgotar tema para conversa.
Gostei muito de conhecer a Marilia, ou mar como gosta que lhe chamem e o seu chá de frutos vermelhos.

Não chorei...

...a noticia da morte do sr.José apanhou-me totalmente desprevenida, os policias que andam a investigar o caso fizeram-me algumas perguntas, mas tenho pena de não poder ajudar grande coisa, conhecia o sr. josé apenas superficialmente, pelo bom dia e boa tarde, pelos sorrisos e pelas perguntas inocentes como por exemplo saber que detergente usavam na limpeza das escadas pelo cheirinho bom que deixava no ar...gostava do sr. José...pela maneira honesta com que me olhava, porque em momento algum percebi um olhar reprovador da parte dele pela vida que levava...e ele sabia...eu sei que sabia...não chorei...estive presente no funeral e não chorei...sentia-me sufocar pelo cheiro da terra molhada desta chuva de fim de primavera...

segunda-feira, maio 16, 2005

o funeral

Acabo de chegar do funeral do sr José. Choveu durante todo o tempo em que durou a cerimónia. O tempo, triste, parecia derramar as "lágrimas" que, aparentemente, mais ninguém deixava cair. Os presentes eram pouco mais de meia dúzia, a maioria,conhecidas de vista, aqui do prédio. Reparei na menina do 5ºc, talvez, por estar vestida de modo menos extravagante...
A hortelã-pimenta que deixei em cima da banca, na semana passada, está murcha (esqueci-me de a meter na água - que cabeça a minha!). Tenho de me contentar com um chá de saco e, este de frutos vermelhos, parece-me bom. A pintora (parece-me que mora no 5ºb) acaba de subir, comigo, no elevador. Reparei que apesar de tudo ainda é uma mulher bonita. As mão são especialmente belas de unhas curtas, embora, com vestígios de tintas. Apetece-me ir lá abaixo convidá-la para tomar chá comigo.
Ofereci-me à professora das traseiras para lhe tomar conta dos gatos enquanto ela estiver ausente (parece-me que tem o casamento de uma sobrinha-neta lá para o Norte)...
Levanto-me, abro a porta e começo a descer as escadas (quem sabe não apetece uma chávena de chá à nossa artista?!)...

domingo, maio 15, 2005

Quem me toma conta dos gatos? (Pedido desesperado de uma velha com saudades...)

Maldito seja este dia! Tudo piorou desde a notícia da morte do senhor José. Lá fora chove demasiado para me aventurar pelas ruas. Dentro de casa, estou presa pelas dores da minha perna. Só espero que a chuva passe depressa, há tanto a fazer lá fora, tanto que ver…

Estes dias têm sido peculiares. Do alto das grandes escadas, tenho visto o corrupio das mudanças dos novos vizinhos. Alguns parecem-me morar sozinhos, e na sua juventude parecem-me tão velhos, tão velhos! Noutros apartamentos, são famílias inteiras, pais e mães atarefados, filhos falsamente aborrecidos (ansiosos, como todos os jovens, por conhecer mais e mais lugares…), cães e gatos que passarão a ser parte da mobília, como tudo aqui.
Depois, o aparecimento dos inspectores, por aí a rondar, a investigar na portaria… escapei aos interrogatórios, por estar aqui no fim do prédio, mas não teria muito que lhes dizer: que tenho pena, só!

Nestes dias de clausura involuntária, tenho pensado muito no que deixei para trás. São caprichos melancólicos de uma velhota sem ocupação!
Tenho-me lembrado da minha casinha. Lá no Minho, vivia numa casa muito pequena, casa de lavrador. A minha família era tudo menos abastada, mas eu, como filha mais nova, acabei por ter o mimo de todos, e o dinheiro para me tornar professora.
Além de mim, só o meu irmão João conseguiu estudar. É padre, numa aldeia meio perdida mais a interior. Mas que não se pense que o resto de meus 7 irmãos são analfabetos! Todos foram à escola, dois anos, três anos, o que foi preciso para alinhavarem as primeiras letras, saberem as tabuadas, cantarem os rios e os caminhos-de-ferro. Como sinto falta deles!
São pessoas de uma sabedoria tão grande… sinto-me muito pequena perto deles. De que me valem as formas verbais, as contas de dividir, os reis e os presidentes… se eles têm a sabedoria da terra, do calor que faz germinar as sementes, da força do sol e do vento sobre os seus corpos… nunca fui tão feliz como lá, vendo crescer as crianças e as culturas, numa comunhão só conhecida por quem dela partilhe.
Os meus dias de professora eram duros. Compreendia-se, naquele tempo, que o ensino, sendo para todos, só era de qualidade para os que tinham posses… e eu desdobrava-me em mil para dar àquelas crianças mais do que o a-b-c, para lhes ensinar o amor, a partilha, motivá-las a descobrir. Sabia que muitas delas só iam à escola o mínimo de tempo possível, e queria aproveitar esse tempo para as fazer crescer ao máximo.
Eram meninos e meninas tão especiais! Gosto de voltar à aldeia, algumas vezes por ano, para ver o que eles se tornaram. São parte de mim, e orgulho-me dos seus feitos (o José, filho do Chico, conseguiu seguir estudos, a trabalhar ao mesmo tempo, e arranjou um emprego nas Finanças lá da cidade!).

Este saudosismo desajeitado tem motivos. Para a semana, vou de novo lá acima. Esperam-me os meus irmãos vivos, quatro ainda, para matar as saudades desta meia-dúzia de meses sem os ver. O João também se junta a nós, o motivo é nobre!
Casa uma das minhas sobrinhas-netas, uma rapariga doce como a sua avó… sim, devo confessá-lo, é a minha sobrinha-neta preferida. Independente, sim, cheia de força, mas ao mesmo tempo com o mesmo traço de doçura nos olhos que tem sua avó… minha segunda mãe.
Vai ser uma festa grande, juntar toda a família, aproveitar para rever os vizinhos e os amigos que deixei.
Mas cá em casa, fica-me um problema. Os meus inquilinos de quatro patas já pressentem a minha ausência. Ficam desconfiados quando saio a porta (imaginem, só para dar dois dedos de conversa aos vizinhos, lá na entrada) e raramente vêm à sala… acho que estão zangados por eu ir à terra.
Mas a viagem é curta, meus pequenos! E vocês ficam em boas mãos… tenho de pedir a uma daquelas jovens simpáticas que se mudaram para cá, para virem dar o jantar aos meus lindos… ai, mais um trabalho num dia em que não o posso fazer! Além do mais com a confusão que se criou com a morte do senhor porteiro… coitado, tão bom homem, e havia de acabar assim… ai ai, as confusões que acontecem nesta vida!
Vou até à marquise, ver como é que eles se estão a portar!

sábado, maio 14, 2005

Içar ferro

Estou de partida, mais uma vez. Não sei bem em dia zarpo, quando o vento estiver de feição. Não sei bem qual era o dia destinado a comunicar a minha partida, arrisco hoje. Queria convidar os meus vizinhos para um almoço de "até já". Quando partes para o Mar, nunca dizes "adeus". Um almoço não é muito usual, mas eu prefiro-o aos jantares. O dia pode alongar-se, a noite entrar pelo almoço adentro. O Sol que bate na vidraça poderá deixar entrar o luar. Não gosto de barulho, nem de o fazer, nem de o ouvir. Habituei-me ao silêncio da vaga larga que quebra na amura e dos ventos que, por aqui, quase sempre sopram de norte. Por isso escolho o almoço. O dia e a luz. Corro menos o risco de incomodar alguém que tente dormir. Teremos pilado e perceves dos Farilhões, peixo porco, cavala e talvez mesmo um robalo, pescado ali nas Estelas. Antigamente, bastava colocar os óculos e ficar atento ao canal. Haveria sempre de por ali rondar um cardume deles. Grandes, muitos e muito grandes, como há 20 anos não vejo. Agora, se pescar algum, só isso será a festa! Filetes de peixe porco... não sei onde anda a minha tábua pregada de amanhar o bicho. Serei mordida quando o arrancar, à força bruta, do anzol. Enquanto a caixa de madeira se for enchendo de cada vez mais um, ouvirei o seu roncar, se fechar os olhos, sou capaz de até pensar que voltei a ser criança e ando na quinta com os meus primos a brincar nas pocilgas. Eram os nossos tratamentos de SPA. Bom ou mau, a verdade é que depois desses tratamentos de lama, passávamos um ano inteiro sem alergias, sem bronquites, sem ranhos no nariz. Sem estas coisas esquisitas de que as crianças de agora padecem. Era, também, no tempo em que saltávamos para o dorso dos bois e nos deixávamos embalar naquele seu passo trôpego. Chegávamos ao pomar e comíamos quantas pêras verdes nos coubessem na barriga. São tempos que ficaram para trás. Virei as costas ao verde e parti rumo ao infinito do azul. Aquele infinito que vemos lá, onde o Céu toca o Mar, mas que nunca alcançamos. Um dia, sei que serei corpo feito cinza. Nesse dia voarei de encontro desse infinito. Levada pelos ventos, sei que que chegarei. Será então, o descanço final. Até lá, vou mandando postais dos portos onde lançar ferro.

sexta-feira, maio 13, 2005

Primeiro contacto

Apresentando-me: sou o Mário do 10º esquerdo. Tenho 18 anos e sou estudante do primeiro ano do curso de Medicina. Vim para este prédio de forma a estar mais próximo da minha faculdade. Estou actualmente a viver sozinho no meu T0. Cheguei há dois dias, precisamente no dia em que faleceu o nosso porteiro. Nunca cheguei a contactar directamente com ele. No entanto, sinto que está um ambiente triste no prédio… Espero que seja temporário!

Saio do autocarro e percorro a pé os cerca de 100 metros que separam a paragem de autocarro do prédio onde agora habito. Ao tentar endireitar o casaco que vesti à pressa ao sair do autocarro, deixo cair o pesado livro de Anatomia. Baixo-me para o apanhar e levanto-me retomando o caminho. Aproximo-me da porta do prédio à frente da qual está uma rapariga aproximadamente da minha idade remexendo e revirando o conteúdo da sua mala, presumo que à procura das chaves. “Deixa estar! Eu abro!”, digo eu, sorrindo discretamente para ela, ao mesmo tempo que tiro a chave do bolso e abro a porta. Deixo-a passar e ela agradece-me. É uma rapariga realmente bonita! Fico curioso e com vontade de a conhecer melhor… O que se esconderá por detrás daquelas belas feições? Entramos no elevador e este começa a subir. Sinto o perfume suave da minha companheira de elevador e dou por mim a olhar fixamente para ela. Desvio discretamente o olhar. O elevador continua a subir e, quando finalmente me decido a perguntar-lhe o nome, eis que o elevador pára no 2º andar e a rapariga abre a porta para sair. Antes de deixar a porta fechar, despede-se de mim com um sorriso e parece dirigir-se para o apartamento A. A porta do elevador fecha-se e eu retomo a minha viagem ascendente até ao 10º andar. Fico com o último sorriso da rapariga do 2º A a pairar à minha frente, como quem fica muito tempo a olhar directamente para o Sol. O elevador pára. Pego na chave e abro a porta do 10º esquerdo. Entro no meu T0 e deito-me sobre a cama a pensar na musa que partilhou alguns segundos de elevador comigo. Sacudo a cabeça e sento-me na borda da cama. Tenho que me concentrar! Amanhã é dia de aulas… Pego no livro de Bioquímica e sento-me à secretária para começar a estudar… Não tenho grande vontade, mas tem que ser…

quinta-feira, maio 12, 2005

A Notícia

Fecho a porta.
Ainda não consigo acreditar...! O Sr. José morreu!!!

Estava a pintar quando alguém bateu à porta. Era um Inspector. Segredo é o seu nome.
Veio ao prédio para falar com todos os inquilinos procurando informações que possam ajudar nas investigações e soube a noticía por ele.
Parece que foi encontrado caido num jardim... ataque cardiaco, mas não sabem ainda o que provocou o enfarte. O corpo estava mal tratado... provavelmente foi assalto e o corpo cansado já com alguma idade não aguentou o susto.
Apesar de morar neste prédio à 5 anos não conhecia muito bem o Sr. José. Era um homem muito reservado com os seus assuntos. Sempre bem disposto e atencioso, notava-se no entanto uma tristeza no fundo do olhar que nunca soube identificar... seria solidão? Cansaço da vida sempre igual? Saudade de uma outra vida ou perda da esperança de que um dia tudo poderia ainda ser? Espero que tenha encontrado a paz e apagado essa tristeza do olhar.
Já faz falta o Sr. José e vai com certeza deixar suadade...
Vai custar habituar os dias sem o seu bom dia e sorriso logo pela manhã...

Sobre o porteiro...

Acabada de chegar de uns dias fora e soube agora da notícia do porteiro…
Fiquei chocada! Simpatizava com ele, apesar de eu morar há pouco tempo

cá no prédio, reparava que ele era muito afável com as crianças, tinha sempre
um saco na portaria com rebuçados que distribuía pelos pequenitos.E como eles
gostavam desse pequeno mimo!
Está cá um inspector, foi por ele que soube, quando entrei no prédio.
Coloco a chave na porta, entro e penso… ele era uma pessoa que vivia sozinho,

nem sabemos se tinha família, provavelmente não, mas também nunca tive muito
tempo para falar com ele, a maior parte das vezes era sempre de fugida. Será que
se tivesse tido mais tempo saberia algo mais sobre ele… interrogo-me e penso
que passo muito tempo ou fora do prédio ou enfiada no apartamento a pintar,
ocupada com os meus pensamentos… e se eu tivesse tido um tempo para falar
com ele, poderia ate ter um filho no estrangeiro, fruto de uma relação fugaz e
o mesmo vivesse com a mãe e não soubesse do paradeiro de seu pai.
Ai a minha imaginação voa nesta altura a uma velocidade luz!
Acendo um incenso e abro a janela da sala, respiro o ar que entra e não me sai

da cabeça esta história… porque será? Eu que até nem tive oportunidade de falar
com ele com tempo, saber um pouco mais da vida deste homem que tinha sempre
para um sorriso pronto desde manhã á noite e, eu falo por mim claro, nunca tive
muito tempo para saber um pouco mais… por trás daqueles olhos que mostravam
muitas vezes um cansaço, uma tristeza, como se algo lá no fundo do coração
teimasse em espreitar!
Não consigo expressar por palavras o que por vezes sentia quando o olhava nos

olhos e sentia a sua solidão, a sua tristeza interior que tentava disfarçar com
o seu sorriso e o cumprimento habitual: bom dia! Sim porque a maior parte
das vezes via-o logo cedo, e achava que não seria um cansaço físico, mas sim
algo interiorizado pelo passar dos dias de extrema solidão.
Estou cansada…vou descansar um pouco para recuperar da viagem. Ate breve.

p.s. não me apresentei…sou a Inês e moro no 13º

Ainda o S. josé

Tinha decidido ir passar o dia ao meu novo esconderijo- o estudio do 11º frente. A solidão pesava mais do que em outro dia qualquer pelo que sentia a necessidade de estar só. Trazia a velha cafeteira electrica, um ramo de hortelã-pimenta acabadinha de colher no jardim lá de casa e o meu cd preferido: "Só" do Jorge palma. Quando subi as escadas do patamar deparei-me com o inspector Segredo que saía e entrava no r/ch esq. Senti um baque quando fui interpelada por ele. Queria saber se eu vivia ali, se conhecia o Sr josé, se lhe conhecia hábitos estranhos, amigos?...
Não, não lhe conhecia os hábitos e quase não o conhecia a ele. E, também não morava ali, embora tivesse um estudio alugado no prédio. Olhou-me com desconfiança mas despediu-me, secamente, depois de me informar que o porteiro havia sido encontrado morto. Apanhei o elevador, não sem antes dar uma espreitadela para dento do r/ch esq onde estava tudo escrupulosamente arrumado. A informação adicional de que a morte se teria devido a paragem cardíaca causada por motivo indeterminado fez-me associar-lhe as pernas, bem torneadas, as micro-saias e as camisolas transparentes da menina do 5º C. Tentei afastar a ideia e continuei a subir. Abri a porta e entrei, ouvindo os miados dos gatos da vizinha das trazeiras. A solidão ainda estava lá mas a pena de mim mesma tinha desaparecido. Pareceu-me que seria imprescindível determinar a causa da morte do sr José mas, mais importante do que isso, tentar saber o que se faria com os seus restos mortais... teria confidenciado a alguém os seus últimos desejos? Teria familiares? Iria ter um funeral condigno? Preferiria ser cremado? Talvez o André do 6º esq. soubesse de alguma coisa... Comecei a descer as escadas...

mar

quarta-feira, maio 11, 2005

A morte do Porteiro

Foto de: Carlos Sequeira


Encontrámos um indíviduo de raça caucasiana com idade compreendida entre os 70 e 75 anos, na madrugada de 11 de Maio no Jardim dos tristes. Vestia calças de tecido de cor creme, da marca "Don Vitolini" e uma camisa de cor azul marinho da mesma marca.Calçava um par de sapatos de couro castanho engraxados, de número 41 da marca "Calcantex".
O indíviduo, não possuia qualquer documento identificativo possuindo apenas consigo algumas fotos antigas e um pequeno pente que se presume ser para o bigode.
Após relatório da autópsia concluiu-se que a morte terá sido fruto de paragem cardiaca provocada por acontecimento indeterminado.O corpo apresentava sinais de agressão. Um dos trabalhadores da morgue, identificou-o como o Senhor José Porteiro, residente em .... na rua.... no edíficio... rés do chão esquerdo, no qual exercia também a profissão de porteiro.
Foi aberta uma investigação para o apuramento dos factos que terão determinado a morte do Senhor José Porteiro. Se possuirem alguma informação que seja considerada útil para o apuramento de tais factos agradecemos que nos contactem o mais rápido possível. Obrigado.


Inspector Segredo

segunda-feira, maio 09, 2005

Eu Maria...

Hoje acordei com disposição para ir fazer compras...tenho dias assim, em que a vontade de andar a ver montras a experimentar roupas e sapatos é superior á vontade de ficar em casa. Hoje tirei uma folga e deixei tudo para trás, saí sem fazer a cama e deixei a janela aberta. Bem sei que poderia sair de uma maneira mais 'normal', ainda olhei para o jeans, mas no fundo gosdo de chocar...acho que já me habituei assim e não consigo ser de outra forma...escolhi uma saia curta onde deixei repousar um cinto com as duas pontas pendentes e a camisola de licra fushia não me deixaria passar despercebida...as socas...sim...levaria as socas, gostava do eco que elas deixavam quando tocavam o chão. Quando saia do elevador quase choquei com um fulano que quase não me deu tempo de sair, parecia que fugia...olhos pregados no chão...pediu um desculpe quase inaudivel e a porta fechou-se tão rápidamente que nem tive tempo de responder...fiquei a olhar para o visor dos andares...estava a descer...ia para a cave...saí...sacudi os cabelos antes de abrir a porta do prédio, o Sr. josé não andava por ali...senti a falta do seu bom dia e do seu sorriso, gostava do homem, era dos poucos que não me falava com segundas intensões...
As horas passaram a correr, como sempre passam de cada vez que estamos a fazer algo de que gostamos...almoçei pela baixa, e acabei por subir a avenida a pé, mesmo pelo meio do jardim que divide os dois sentidos de transito, existem por ali uns quiosques onde decidi tomar um café...e sorri enquanto ali estava com a lembrança de uma frase que ouvira o meu pai dizer centenas de vezes...'Achas o quê? Que anda no Rossio a dar milho aos pombos?'...tinha saudades dele...muitas...
Voltei para casa quando o ceu atingia um tom rosado de final de dia. Cheia de sacos e sacolas, trazia a alma leve e a vontade de me afundar na banheira com aqueles sais de banho que tinha comprado, sempre queria ver se relaxavam como dizia na embalagem. Quando estava a chegar á entrada de prédio reparei no casal que abria a porta da entrada, dei uma corrida para aproveitar a boleia, assim escusaria de ter de procurar as chaves na mala. Acho que foi o barulho das minhas socas a bater no chão que lhes despertou a atenção e os fez olhar por cima dos ombros, ela com um olhar avaliador, como nós mulheres costumamos fazer umas para as outras...o dele...como se soubesse quem eu era...se calhar...não o podia dizer...á muito que deixei de coleccionar rostos, é muito mais fácil apagar...
Agradeci e deixei-me ficar propositadamente á procura da chave dentro da mala como quem vai ver o correio...já o tinha desde manhã...mas consegui o meu propósito...deixá-los subir primeiro no elevador...
Quando saia do elevador chegou-me ao nariz o cheiro de chá acabado de fazer e a tinta...

sexta-feira, maio 06, 2005

Sou a Rita do 3º direito

Chamo-me Rita e sou a nova inquilina do 3ºesq. Mudei-me há três semanas, ainda tenho caixotes espalhados pela casa e não encontro o lugar certo para o sofa.Não vivo sozinha. Vivo com o João, o meu namorado, e com o nosso Sao Bernardo (sim ele cabe no apartamento; Não, não se sente apertado, é bastante feliz até!) que se chama Sebastião (porque come tudo...e sem colher!).Vizinhos? Não conheço nenhuns, creio que ha apartamentos que estão vazios, a única pessoa que vejo todos os dias é o porteiro e o Joaõ diz que conhece a cara da inquilina do 5ºc, mas não sabe de onde...eu também não, acho que nunca a vi!O que mais gosto neste apartamento é a janela da sala, enorme, estende-se quase ao longo de toda a parede e é alta, practicamente do tecto ao chão...assim parece que não ha paredes a separar-me do mundo! E gosto também deste prédio, porque fica perto do meu local de trabalho, a rádio X, aqui da cidade, o João é que ficou mais longe do hospital onde trabalha, mas seria pior se o pai não lhe tivesse dado um carro novo.De resto, espero que o ambiente aqui seja tranquilo, sem problemas de maior, vou ter cuidado com o Sebastião, embora possa assegurar que é um cão bastante asseadinho...e vamos tentar ser bons vizinhos!Comecei uma nova etapa da minha vida, pessoal e profissional, e espero que tudo corra bem aqui neste meu canto...na minha casa!

quinta-feira, maio 05, 2005

A voz da cave

O meu nome é João Escuro, e vivo na cave. Consegui convencer o porteiro a ficar com a cave depois de muito insistir, já que assim posso evitar cruzar-me com os outros inquilinos.
Tenho medo das pessoas, medo dos seus passos, medo das suas vozes das suas mãos das suas sombras, não consigo suportar a presença de alguém que não seja apenas eu. Nem sempre fui assim, a vida fez-me assim, o mundo fez-me assim. Amei uma vez...
Trabalho à noite e de dia não consigo dormir com medo de que as paredes húmidas e negras nos cantos se fechem em mim como braços. O meu trabalho? Esse dá-me prazer, acalma-me os nervos e é o único que me permite estar com pessoas...mortas. Trabalho na morgue, preparo os cadáveres para as autopsias. Espalho todas as minhas palavras pelos corpos frios. Por vezes sinto que me dizem qualquer coisa, e tento escutá-los, mas é apenas o eco da minha voz que se espalha entre eles, nus, frios e hirtos, todos com a mesma expressão de silêncio. Por vezes custa separar-me deles, são os únicos amigos que conheço, e quando vão embora lamento a sua partida. Não teimam em, dar-me conselhos, não me fazem perguntas idiotas nem sorriem por coisas idiotas ou cospem para o chão. São bons ouvintes e sabem guardar um segredo.
Tocam-me à porta, vou fingir que não estou...

Hist�rias do pr�dio ao lado

Hist�rias do pr�dio ao lado


Sou a marília, mar para os amigos e conhecidos. Mudei-me há dias para o 11º
frente mas ainda não tomei posse, verdadeiramente, do meu novo espaço. Gosto
de morar bem alto. Daqui posso espraiar o meu olhar para o horizonte. Sou
casada há muitos anos e tenho 2 filhos grandes. Mudei-me para cá sózinha mas
não vou viver aqui. Este será o meu refúgio onde posso viver a minha solidão
sem me sentir culpada. Pensei em trazer as minhas 2 gatas mas isso obrigava-me a
vir cá mesmo que não me apetecesse... Resolvi não trazer nada a não ser
alguns móveis e muitas almofadas. Por enquanto só tenho uma cadeira de
baloiço, uma velha aparelhagem de música (não tão velha pq já passa cds)
que comprei em segunda mão.
Gostei do porteiro. Não sei porquê mas fez-me lembrar o personagem principal
de "todos os nomes" do José Saramago...O sr josé, assim se chama o dito
personagem, apesar da vida desinteressante de toda a sua existência consegui
revelar-se um homem apaixonado e ter um rasgo de coragem para procurar o
objecto dessa sua paixão. Tb eu tenho tido as minhas paixões e, talvez vos
fale delas um dias...
Bem, volto para a minha outra vida por hoje

beijos

mar

quarta-feira, maio 04, 2005

Inquilina do 4º andar Dto.

Passei pelo porteiro ao entrar no prédio e pareceu-me boa pessoa. Sorri-lhe.
Decidi ir pelas escadas para ambientar-me à nossa nova moradia, em vez de ir pelo elevador. Cruzei-me com a senhora da limpeza e a pequena filha. Fiquei satisfeita ao ver pelo menos uma criança no prédio, vai ser bom para o meu filhote ter companhias de brincadeira. Aprendi a custo que devemos ter sempre amigos por perto e o melhor é começar logo em criança a cimentar relações.
Abri as portas da nova casa sorridente.
Fiquei apaixonada pelo apartamento a primeira vez que o vim visitar. O meu marido também gostou muito. Gosto muito de grandes janelas, especialmente na sala. Gosto muito de ter a casa iluminada pelo Sol. Deixa-me feliz.
Acho que irá ser bom para nós esta mudança. Ainda bem que o Francisco, meu filhote, tem só 2 anitos, assim não será difícil adaptar-se.
Oh... mas que indelicada, nem me apresentei. Chamo-me Sofia, tenho 25 anos, sou jornalista e um pouco fotógrafa e nas horas vagas, as poucas que me sobram depois de cuidar de um marido e de um filho, escrevo poesia. Com esta mudança perdi o meu emprego, mas não me preocupo. Encontrarei outro, é só procurar.
O meu marido chama-se Nassim... pois, não é português, é palestiniano. Eu que sou pouco crente em Deus e nada religiosa casei com um muçulmano. Temos algumas discussões sobre religião, mas eu até gosto, chego a divertir-me. O Nassim é cozinheiro e tem um óptimo restaurante, muito conhecido em Londres, onde morávamos. Mudámo-nos porque ele vai abrir outro restaurante aqui. Até já escolhemos o nome... bem, foi o Kiko que escolheu e nós, pais babados que somos, aceitámos a ideia num ápice... «Nesmah» será o nome do restaurante.
Bem, tenho que ir buscar o pequenote à creche, não quero atrasar-me logo no seu primeiro dia.

segunda-feira, maio 02, 2005

A artista frustrada do 5º B

Habito este prédio há 5 anos, desde o divórcio.
O caso típico: "Homem troca mulher de 40 por uma de 20".
Amei. Engravidei. Casei. E ele deixou-me por uma mais nova. O que aconteceu entretanto não parece ter grande importância...
Era jovem. Tinha a mania que era artista (caracteristica que ainda hoje mantenho) e pensava que podia mudar o mundo quando nem a minha vida consegui mudar na altura que o devia ter feito.Sou pintora nas horas vagas e proprietária de um atelier na baixa onde dou "aulas" de desenho e pintura a pessoas que não têm mais que fazer e a outras que como eu, um dia, sonharam que podiam ser exactamente aquilo que queriam.
Na minha casa existem mais telas que móveis... pode ser que quando morrer descubram que era possuidora de um grande talento e imortalizem as minhas obras como pioneira de uma corrente qualquer que inventarão na altura.
Tenho uma filha - Aurora - que já não precisa de mim e que de vez em quando visita a louca da mãe para verificar se chegou o dia de a internar.
A minha vizinha do 5º C, dizem que existe mas nunca a vi. Um dia bato-lhe à porta com uma caneca de café... pode ser que seja apenas tímida... é sempre bom ter alguém diferente para conversar.
O meu primeiro "Bom dia" é sempre para o Porteiro. Tem sempre um sorriso pendurado no bigode... gostava de saber como consegue...
Tenho os dias iguais uns aos outros e todas as manhãs, fito a estranha que me olha no espelho e digo: "Hoje vai ser diferente." mas ela nunca me ouve...
Sou, portanto, uma mulher nos 40... uma pintora frustrada com tendência para a loucura e moro no 5º B.

Comunicado

Bons dias meus senhores e minhas senhoras. O porteiro tem assuntos para resolver esta semana e não vai poder estar presente. Para qualquer eventualidade que possa surgir,é favor contactar o senhor André que estará a cargo do prédio. Bom dia

Fica aqui o seu contacto:
alif@mail.pt