sexta-feira, junho 23, 2006

Voltas e Reviravoltas

O cão estava inquieto por isso resolvi levá-lo até ao parque. Também eu necessitava de tomar um café e fazer um pouco de exercício. Meti a laçada da trela no pulso para dar a volta à chave na fechadura e descer, calmamente, os dois degraus que nos separavam do hall. Um esticão, uma corrida em desiquilíbrio e fui chocar com um homem de cabelo branco. O cão ladrava furiosamente. À porta da rua haviam parado alguns transeuntes a apreciar a cena, numa grande galhofa. Eu sentia-me ruborizada e preparava-me para pedir desculpa quando reparei num leve sorriso na cara do homem, o que teve o condão de me deixar, ainda mais, furiosa. A margarida tinha chegado, entretanto, e agarrava o cão pela coleira ao mesmo tempo que enxotava o magote da portaria, com um "tem muita graça mas o espectáculo acabou..", enquanto nós nos desenvecilhávamos da trela.
- Convidava-a para um café mas não me parece boa altura... - disse ele a olhar-me a esfregar o "rabo", com aquele leve sorriso que tinha o dom de me irritar.
- Olhe...(vá dar uma volta) - pensei
Margarida agarrou-me por um braço, parecendo adivinhar o que me ia na cabeça, e puxou-me
- Venha tomar uma caneca de chá
- Quem é o raio do homem que pensa ser o rei do mundo?!
- Calma. É o novo inquilino. Chama-se Afonso Vilhena. Mudou-se há alguns dias...acho que é escritor. Simpático, por sinal!...
- Parceu-me arrogante...
- Que bicho lhe mordeu? Que mau humor!... Sabe quem é que apareceu por aí? - perguntou a nossa porteira
- Não- respondi tentando parecer interessada - Quem foi?
- O filho do antigo porteiro ...não o conheceu,ainda não morava cá, que cabeça a minha!... Diz que se chama António e mostrou-se interessado em alugar um apartamento. Deu uma vista de olhos pelas coisas do pai que ainda tenho aí guardadas mas não quis levar nada para além dum velho livro todo rabiscado e um fotografia a cair de velha. Não sei se volta...
- E aquilo que aconteceu ao filho da Rita e do João?!- tentei mudar o rumo da conversa- Não sei como foi possível nem sei como é que eles se têm aguentado...
- Pois é... quase não saem de casa. Até o sebastião parece desorientado...
- A verdadeira razão que me levou a trazê-la cá a casa foi, para além de evitar que se pusesse a disparatar com o pobre do afonso Vilhena é que queria perguntar-lhe se me toma conta da portaria.Fui convidada a participar, para os lados de Viseu, numas escavações onde foram encontrados vestígios dos Lusitanos. Como sabe, não posso perder este emprego nem a casa...
- Claro. Se quiser tb fico com a Joana
- Desta vez levo-a comigo. Não devem faltar coisas para ela fazer e o contacto com a natureza vai ser muito bom para ela. Obrigada. Sabia que podia contar consigo. Já arranjei quem venha fazer a limpeza das escadas.
- Está bem...então ficamos assim... eu tomo conta dos problemas correntes da portaria enquanto a Margarida estiver fora.

sábado, junho 10, 2006

Adeus

(Porque ninguém me tem visto no prédio)

Os lençois do berço continuam desfeitos, tal e qual como ficaram quando pegeuei nele ao colo naquela manhã, os brinquedos continuam espalhados no chão, mas ele não está lá a morde-los...
A Rita diz-me que tenho que chorá-lo, tenho que ficar com as recordações e viver... Ela chorou, muito tempo, agarrou-se a mim, apertou-me e com o olhar suplicou-me que chorasse com ela, não consegui e não a deixei tocar em nada do que era dele.
Ela esgota a dor, quando entra, no quarto, não mexe em nada, diz ela, mas eu sei que quando a saudade aperta, ela senta-se junto do berço e chora, chora muito, mas sufoca o som, porque não quer que eu ouça.

Hoje dei a mão à Rita e levei-a até à porta do quarto dele, dei um passo e entrei, apanhei os brinquedos e pus dentro do "caixote da tralha" (como eu lhe chamo), a Rita tirou os lençois do berço, dobrou-os e pousou-os na arca, dobramos a roupa e pusemo-la dispostas em cima do colchão despido.
Fui à garagem e trouxe caixotes. Colocamos tudo lá dentro e selamos com cola adesiva.
O quarto ficou nu... a Rita saiu, depois de me ter dado um beijo, fiquei eu e o quarto vazio. Caí no chão, de joelhos e chorei, chorei mais do que alguma vez tinha chorado na vida.
Hoje disse adeus ao meu filho.
Agarrei-me a um dos últimos fatinhos dele, o cheiro dele contiunua lá e eu quero senti-lo para sempre... este vou guarda-lo na minha gaveta...
shiuuu! ... não... pareceu-me ouvi-lo palrrar...

João