quinta-feira, novembro 02, 2006

As mudanças...

Estas mudanças estão a dar cabo de mim... Parece que não têm fim... Só de imaginar que tenho o aquário para trazer para o 9 andar... Só espero que os vizinhos não se importem com o barulho visto ter de o levar pelas escadas pois não cabe no elevador. Quando vinha a chegar da rua vi que a porteira D. Margarida falava com uma senhora, talvez uma vizinha, e quando disse olá não obtive resposta. Penso que não me ouviram de tão absorvidas que estavam na conversa... E não me pareceu nada uma conversa alegre. Agora vou preparar o jantar para o Miguel que deve vir muito cansado. Estes dias na empresa não tem sido fáceis. Ainda mais porque um ex funcionário levantou rumores que podem dar cabo da carreira dele. Mas porque é que existem pessoas assim??
Carolina

sábado, outubro 14, 2006

Conversa

E a casa está mais vazia do que nunca...
No prédio já não me cruzo com ninguém, pareço um fantasma num prédio abandonado à sorte dos que ainda respiram.
Há novos inquilinos. Não tenho opinião sobre eles, não me lembro da cara deles...
E estou a falar consigo D.Margarida, porque é a única a quem ainda veja, a quem ainda dirijo uma palavra por força da presença de todos os dias...
Não olhe para mim assim, eu sei que não é por mal, mas agora volteia ser só eu... Eu a passear um cão pela trela todos os dias em vez de um carrinho...
Já não tenho lágrimas, agora sinto que não sinto. Sou imune á dor.
- E o Dr.João, como está?
Longe... Tão longe como eu. Perdido. Insano. É médico a tempo inteiro agora... Já nem sei se aguento viver aqui com ele, não sei se ele me aguenta.
Sabe o que é sentir o coração a sair boca fora?
-Imagino o que seja. Sei o que é...
O meu já saltou... O João não o quis apanhar... acho que não conseguiu.
-... Não sei o que lhe diga.
Diga-me quando é a próxima reunião de condominio...

domingo, julho 30, 2006

Os novos inquilinos do 9 esq!!!

Carolina:
O meu nome é Carolina de Mattos Braga e tenho 25 anos... Sou formada em Direito pela Universidade do Minho, como também é toda a minha família, mas não exerço. Deixei Caminha, a minha cidade natal, para me mudar para Lisboa de forma a poder trabalhar no que mais gosto, ou seja Joalharia. Sem a autorização dos meus pais e contra tudo e todos consegui tirar um curso nesta área que tanto gosto! Sou casada com o Miguel por conveniência de ambas as partes, apesar de não sermos um casal normal. Espero singrar na minha nova carreira e poder começar a viver a minha vida como sempre quis, ou seja, sendo dona de mim mesma e sem ter de seguir o que os meus pais desejam.
Miguel:
Chamo-me Miguel Braga e tenho 27 anos! Sou casado com a Carolina, a única pessoa que sempre me apoiou em todas as minhas decisões e que nunca me tratou de maneira diferente por ser como sou. É sem dúvida a "mulher" da minha vida. Sou formado em Gestão de Empresas, também pela UM (foi na universidade que conheci a minha "idealista") e mudei-me para Lisboa para gerir a empresa de Telecomunicações da família e também para poder apoiar a Carolina no seu novo projecto. Não somos um casal normal, e por isso escolhemos este prédio que me parece recatado e simples. E é disto que precisamos.

quarta-feira, julho 12, 2006

Indicações para os candidatos a novos inquilinos

Faço saber a todos os interessados a participar da vida do prédio que deverão indicar o vosso email para que eu vos possa fazer chegar a chave de acesso ao mesmo.
Para qualquer dúvida poderão entrar em contacto através do email moonlightgirl48@hotmail.com.
Procuramos pessoas que tragam dinamismo ao prédio através da sua criatividade, boa capacidade de escrita e interacção com as restantes personagens - os vizinhos!, ou seja: Margarida, Marisa, Luana, Bruno, Afonso Vilhena, Rita e João.
Ficamos à espera do vosso contacto!

quarta-feira, julho 05, 2006

sexta-feira, junho 23, 2006

Voltas e Reviravoltas

O cão estava inquieto por isso resolvi levá-lo até ao parque. Também eu necessitava de tomar um café e fazer um pouco de exercício. Meti a laçada da trela no pulso para dar a volta à chave na fechadura e descer, calmamente, os dois degraus que nos separavam do hall. Um esticão, uma corrida em desiquilíbrio e fui chocar com um homem de cabelo branco. O cão ladrava furiosamente. À porta da rua haviam parado alguns transeuntes a apreciar a cena, numa grande galhofa. Eu sentia-me ruborizada e preparava-me para pedir desculpa quando reparei num leve sorriso na cara do homem, o que teve o condão de me deixar, ainda mais, furiosa. A margarida tinha chegado, entretanto, e agarrava o cão pela coleira ao mesmo tempo que enxotava o magote da portaria, com um "tem muita graça mas o espectáculo acabou..", enquanto nós nos desenvecilhávamos da trela.
- Convidava-a para um café mas não me parece boa altura... - disse ele a olhar-me a esfregar o "rabo", com aquele leve sorriso que tinha o dom de me irritar.
- Olhe...(vá dar uma volta) - pensei
Margarida agarrou-me por um braço, parecendo adivinhar o que me ia na cabeça, e puxou-me
- Venha tomar uma caneca de chá
- Quem é o raio do homem que pensa ser o rei do mundo?!
- Calma. É o novo inquilino. Chama-se Afonso Vilhena. Mudou-se há alguns dias...acho que é escritor. Simpático, por sinal!...
- Parceu-me arrogante...
- Que bicho lhe mordeu? Que mau humor!... Sabe quem é que apareceu por aí? - perguntou a nossa porteira
- Não- respondi tentando parecer interessada - Quem foi?
- O filho do antigo porteiro ...não o conheceu,ainda não morava cá, que cabeça a minha!... Diz que se chama António e mostrou-se interessado em alugar um apartamento. Deu uma vista de olhos pelas coisas do pai que ainda tenho aí guardadas mas não quis levar nada para além dum velho livro todo rabiscado e um fotografia a cair de velha. Não sei se volta...
- E aquilo que aconteceu ao filho da Rita e do João?!- tentei mudar o rumo da conversa- Não sei como foi possível nem sei como é que eles se têm aguentado...
- Pois é... quase não saem de casa. Até o sebastião parece desorientado...
- A verdadeira razão que me levou a trazê-la cá a casa foi, para além de evitar que se pusesse a disparatar com o pobre do afonso Vilhena é que queria perguntar-lhe se me toma conta da portaria.Fui convidada a participar, para os lados de Viseu, numas escavações onde foram encontrados vestígios dos Lusitanos. Como sabe, não posso perder este emprego nem a casa...
- Claro. Se quiser tb fico com a Joana
- Desta vez levo-a comigo. Não devem faltar coisas para ela fazer e o contacto com a natureza vai ser muito bom para ela. Obrigada. Sabia que podia contar consigo. Já arranjei quem venha fazer a limpeza das escadas.
- Está bem...então ficamos assim... eu tomo conta dos problemas correntes da portaria enquanto a Margarida estiver fora.

sábado, junho 10, 2006

Adeus

(Porque ninguém me tem visto no prédio)

Os lençois do berço continuam desfeitos, tal e qual como ficaram quando pegeuei nele ao colo naquela manhã, os brinquedos continuam espalhados no chão, mas ele não está lá a morde-los...
A Rita diz-me que tenho que chorá-lo, tenho que ficar com as recordações e viver... Ela chorou, muito tempo, agarrou-se a mim, apertou-me e com o olhar suplicou-me que chorasse com ela, não consegui e não a deixei tocar em nada do que era dele.
Ela esgota a dor, quando entra, no quarto, não mexe em nada, diz ela, mas eu sei que quando a saudade aperta, ela senta-se junto do berço e chora, chora muito, mas sufoca o som, porque não quer que eu ouça.

Hoje dei a mão à Rita e levei-a até à porta do quarto dele, dei um passo e entrei, apanhei os brinquedos e pus dentro do "caixote da tralha" (como eu lhe chamo), a Rita tirou os lençois do berço, dobrou-os e pousou-os na arca, dobramos a roupa e pusemo-la dispostas em cima do colchão despido.
Fui à garagem e trouxe caixotes. Colocamos tudo lá dentro e selamos com cola adesiva.
O quarto ficou nu... a Rita saiu, depois de me ter dado um beijo, fiquei eu e o quarto vazio. Caí no chão, de joelhos e chorei, chorei mais do que alguma vez tinha chorado na vida.
Hoje disse adeus ao meu filho.
Agarrei-me a um dos últimos fatinhos dele, o cheiro dele contiunua lá e eu quero senti-lo para sempre... este vou guarda-lo na minha gaveta...
shiuuu! ... não... pareceu-me ouvi-lo palrrar...

João

quarta-feira, maio 31, 2006

O TEMPO NUNCA VOLTA (PARTE 3)

Saí disparada, porta fora, mal acabei de receber aquele telefonema. No atrio quase esbarrei com um homem de cabelo branco amarrado em rabo-de-cavalo. Cumprimentou-me e eu olhei-o surpreendida a pensar em quem seria. Não me parecia conhecido. Tinha a certeza que nunca o tinha visto por ali. De qualquer modo tinha mais em que pensar... O Luciano estava à minha espera. Tínhamos acabado de combinar ir almoçar juntos mas acabámos num quarto de hotel com as roupas, desalinhadas, espalhadas pelo chão. Enquanto nos despíamos, um ao outro, eu sentia (mesmo que ao de leve) que algo estava errado naquela situação. Apeteceu-me, mesmo, voltar a vestir e desaparecer, evaporar-me. Por um lado sentia-me inibida mas por outro tinha uma enorme curiosidade em perceber o que se iria passar a seguir. A situação parecia-me incongruente. Fugir parecia-me rídiculo mas ficar... Acabámos a fazer sexo. Pareceu-me que ambos nos esforçámos por atingir a perfeição com cada um, de nós, a tentar corresponder às espectativas que achávamos que o outro esperava.Tudo certo. Tecnicamente foi irrepreensível. Repetimos mais do que uma vez. Ele estava, anormalmente atencioso, sempre a querer saber se eu me estava a sentir bem ( certamente esperava que eu, com a minha provecta idade, me desintegrasse a qualquer momento!)... A certa altura, num período de descanso, disse, acariciando-me o rosto e olhando-me nos olhos:
- És tão bonita! Devias ter sido deslumbrante há vinte anos...
- Nunca dei por isso. Acho que era normal...Não percebo como é que me podes ver, assim, com esses teus olhos verdes!... Tu és bonito, és jovem... tens umas madeixas tão giras - brinquei enquanto lhe desalinhava o cabelo
- São pintadas
- ah!?
- Vives cá?
- Sabes que sim...- olhei-o surpreendida
-Não moras em Viana?!
Nunca lhe tinha falado da minha vida passada... como é que ele podia saber?!
- Já vivi. Como é que sabes disso?
- Sei muita coisa a seu respeito -disse com um sorriso ingénuo (?)e brincalhão - Sra Dona 4 Emes - Marísa Maria Macedo Matos de Albuquerque.
- Como?! - Começava a ficar ligeiramente irritada
- Não te zangues! Investiguei na Direcção Geral de Viação através da matrícula do teu carro.
Olheio-o como se não o conhecesse
-Tenho fome... Vamos.
Cheguei a casa e, dirigindo-me à casa de banho, pus a banheira a encher, despejei-lhe um frasco de sais e meti-me lá dentro. Tinha necessdade de me levar e nem sabia porquê ou de quê. Deixei-me ficar, ali deitada, de olhos fechado a tentar não pensar em nada... Quando abri os olhos o meu cão tinha entrado, estava deitado no tapete com as patas da frente cruzadas e a cabeça pousada nelas, a olhar-me com aqueles olhos molhados e meigos como quem diz " não te peocupes estarei, aqui, contigo para sempre"

terça-feira, maio 23, 2006

Afonso Vilhena

Subi as escadas lentamente, como quem absorve as paredes, o tecto, todos os passos. Cheguei ao meu andar sem ter visto ninguém. Desfiz as malas e sentei-me, contemplativo, junto à janela. Defronte, duas árvores tentam sobreviver na selva urbana, rasgando a calçada e erguendo-se, imponentes. Se fechar os olhos sinto a rugosidade dos ramos, o aroma fresco das folhas. Sempre gostei de sentir o mundo para me sentir a mim próprio. Vim para esta casa definitivamente. Nunca consegui estar muito tempo no mesmo local. Sempre senti o apelo do desconhecido e sempre segui os meus impulsos. Não que isso tenha mudado, mas quero um lugar que envelheça comigo, quero ser amigo daquilo que me rodeia sem estar a partir. Quero reencontrar-me. Escrevi durante toda a minha vida sobre aquilo que devemos ser, sobre o mundo, sobre o que está para além do táctil e do visível. Fui famoso. Os livros de Afonso Vilhena encheram as prateleiras das livrarias e a minha conta do banco. Peguei no dinheiro e construí um centro com um jardim. Centro de conhecimento da vida, do que não se sabe. Do oculto. Agora vou lá falar de vez em quando, na reunião de grupo geral. Tive uma mulher, mas nunca casei. Ela partilhou a minha cama, a mesa, a casa, mas nunca a minha alma. Não compreendia este meu fascínio pela vida. Acabou cedo. Passei a ser amante da natureza e da própria existência enquanto real e enquanto inatingível. Ainda o sou, aos 55 anos. Ainda tenho em mim uma juventude que espero nunca perder.
Abri os olhos. Há muita coisa a fazer para que esta casa se torne o meu lar. Quero colocar naquela parede um espelho, de forma a ter reflectida dentro do quarto a beleza do céu e das árvores. A minha sala precisa de flores, fetos e violetas, para ganhar cor e vida. Desempacotei os livros e comecei a dispô-los na estante da sala. Depois, liguei a aparelhagem e Bach encheu o ar de forma harmoniosa e perfeita.
Só nessa altura me lembrei que me esquecera de comprar cigarros – o meu único vício. Há algum tempo que ando a tentar deixar de fumar, mas acabo sempre por não resistir. Calcei os sapatos e desci as escadas. À porta do prédio estava uma senhora bem-parecida, mais ou menos da minha idade. Cumprimentei-a cordialmente, mas fiquei admirado com a forma como olhou para mim, com um misto de desconfiança e surpresa. Não tenho ar de bandido, mas talvez o meu 1.90 m e o meu cabelo branco apanhado em rabo-de-cavalo a tenha colocado de sobreaviso – afinal de contas sou um estranho para os meus vizinhos e sim, posso parecer um pouco excêntrico.
Fui até ao quiosque mais próximo e comprei um maço de Cohiba. Voltei para casa, acendi um cigarro e deixei a melodia de Bach tomar conta de mim.

segunda-feira, maio 22, 2006

O Tempo Nunca Volta (Parte 2)

O telem´vel tocou, precisamente, quando eu deixava o ginásio. Era o Luciano.
- Sim?!
- Olá! Como estás? -perguntou do outro lado
- Bem, obrigada. E tu?
- Preciso de falar contigo... Onde estás?
- A sair do ginásio.
-Posso ir ter contigo? Estou perto
Fui apanhada, um pouco, de surpresa. Suada, com o cabelo apanhado em rabo-de-cavalo, sem maquilhagem, com um fato de treino que já tinha visto melhores dias. Mas, porque não? Que tinha eu a perder?
- Ok. Tenho de ir ao supermercado buscar comida para o cão...podemos tomar uma água juntos.
Encontrámo-nos num barzito, no centro comercial
-Ficas bonita com esse ar de miúda
-Sim, devo ficar !...- e dei uma gargalhada
- A sério
Conversámos durante um bom bocado. De tudo e de nada. das nossas vidas passadas e presentes, dos desejos e dos projectos. A sua vida tinha feito dele um jovem muito mais maduro do que a idade faria supor. Começava a parecer-me fascinante
- Tenho de te apresentar uma pessoa - disse eu a pensar em alguém como a Luana.
Olhou-me muito sério.
-Achas que não consigo arranjar uma namorada sozinho?!
- Não é nada disso. Claro que consegues ...
-Quero-te a ti. Era disto que precisava de te falar
Engoli em seco. Não estava à espera de semelhante revelação e muito menos dito daquela maneira
- Desculpa?!
- Sim. Ouviste muito bem. Desejo-te desde o primeiro dia em que te vi
- Desculpa mas ainda não estou preparada para me relacionar com ninguém e muito menos contigo...quase podias ser meu filho!...
- Mas não sou. Sou, apenas um homem que gosta de ti. A idade está na tua cabeça
Despedimo-nos, no parque de estacionamento, com um beijo ao canto da boca.
Fiquei a pensar em tudo o que se tinha passado, em todas as palavras que tínhamos dito, em todos os gestos e comecei a consciencializar-me de como o achava um homem fascinante. Trocámos mensagens durante toda a noite. Voltámos a encontrar-nos no dia seguinte e no outro e no outro. Parecíamos dois adolescentes apaixonados sem medo de o demonstrarem ao mundo.Dei comigo a acreditar que o tempo tinha voltado para trás e de que não tinha mal nenhum sentir-me jovem e desejada outra vez. O que os outros pensassem deixou de me interessar. Passava os dias a desejar os momentos que passávamos juntos.

domingo, maio 14, 2006

O DIA-A-DIA DO PRÉDIO

Tenho ficado mais tempo por casa. Primeiro foi a semana da queima (já não tenho pachorra para tal manifestação) e depois são os exames que se aproximam. Tenho muito que estudar mas, mesmo assim, tem sido bom porque tenho passado mais tempo com a Joana. Se lhe "desse asas" passava o dia metida em casa da menina Rita, por causa do bebé agora que se queixa que a Marisa não a tem levado a passear nem a brincar com o cão. Realmente também não tenho estado com ela. Passa a correr.Quase não pára para conversar. "Bom - dia!, Boa -tarde" e lá sai apressada mas, aparentemente, toda feliz. Não sei que se passa com ela. Se quisesse usar da minha"má-língua" diria que "anda mouro na costa!"
Uma outra que tem andado pelas ruas da amargura, desde que o sr. Pedro desapareceu, é a menina Luana. Sai à noite, de mini-saia e muito maquilhada, e volta de madrugada, com a roupa em desalinho e a maquilhagem esburratada. Chega sozinha, triste e, não raramente, com um copo a mais. Para ser sincera, a maior parte das vezes, nem dou por ela chegar. Às vezes esquece a carteira, a chave...e é nessas alturas que a vejo. Um destes dias até a convidei para entrar, tal era a desgraça em que se encontrava. Tentei meter-lhe um pouco de juízo naquela cabeça. Agarrou na caneca de chá, com as duas mãos, como se tentasse aquecer a alma. Contou-me da sua falta de sorte e das ganas que, às vezes, tem se se auto - destruir, de se provar que não merece viver,de que há algo de errado com a sua pessoa... Estive para lhe contar aquilo por que já passei para lhe demonstrar que temos a obrigação de dar a volta por cima. Não o fiz, não era altura de estar com moralismos nem de provar nada. Deixei para outra vez. Chorou durante muito tempo, primeiro com grandes soluços e depois baixinho. Quando se acalmou deixei-a subir. Espero que se lembre de alguma coisa do que falámos e que resolva dar um novo rumo à sua vida, uma outra oportunidade de ser feliz.
Há um rapaz novo no prédio, chama-se Bruno. Parece ser bastante tímido. Quase não fala quando nos encontramos na escada ou na portaria.Mudou-se há pouco tempo para um andar no mesmo piso da Luana. Parece sossegado. Sai cedo e, raramente, volta tarde. Não sei o que faz...
Quanto a mim, como já disse, tenho ficado mais tempo por casa mas quase não vejo o Jorge. Tem andado muito ocupado com o curso qualquer. Tenho pensado muito nele e acho que continuo a amá-lo...

Margarida (a porteira)

segunda-feira, maio 08, 2006

O TEMPO NUNCA VOLTA

Cheguei cansada. Deitei-me sobre a cama, com o olhar, fixo, num qualquer ponto invisível do tecto. Fiquei, assim durante algum tempo, sem querer recordar. Fechei os olhos...
-De que raça é? - era um homem, pouco mais do que um rapaz.
- Cão, apenas - e sorri.
- É bonito! Tenho-os visto por aqui- disse- Aceita tomar um café?
- Já estou a tomar!... - respondi , pensando - " que quererá este, agora?"
-Posso sentar-me? - Pareceu-me um bocado desconfortável, tímido, até...
- Claro - era a minha faceta maternalista a impor-se - disse que nos tem visto?!
- Sim- Estou na base militar mas estudo Inglês no Instituto que fica no fim da rua... conhece? - não esperou pela minha resposta- costumo parar por aqui para tomar café antes das aulas.
- Pois, o café é bastante bom... - confesso que já tinha reparado nele, a deambular por ali, com aquele ar de menino perdido, mas não me apetecia dizer-lho.
- Gosto muito de cães. Quando era pequeno tinha um que a minha mãe trouxe da rua, perto do trabalho dela. Foi a melhor prenda que algum dia me ofereceram ... - Sorria, enquanto falava- nessa altura vivíamos em Paris.
- Em Paris, Paris?
- Sim. A minha mãe morreu e a minha vida deu umas voltas...uns amigos, percebe?!... metemo-nos numas trapalhadas de adolescentes ... e eu voltei para cumprir o Serviço Militar. Fui para a Bósnia e depois para Timor. Essas experiências fizerm-me crescer e resolvi ficar no Exército por mais algum tempo...Quero ir para a Escola de Hotelaria, quero ser Chef Desculpe... estou para aqui a falar...
- Tudo bem . Continue...
- Estou a gastar o seu tempo - sorriu, desculpando-se - Obrigada por me ouvir mas tenho de ir para o Instituto. Posso vê-la, amanhã, para tomar um café consigo?
Achei piada e aceitei o convite.
No dia seguinte lá estava ele, na esplanada, sentado na mesa do canto com um enorme ramos de rosas na cadeira ao lado. Sorriu, quando eu me aproximei, pegando no ramo
- São para si
- Porquê? Não faço anos... - tentei brincar embora estivesse emocionada. Ao tempo que ninguém me oferecia flores!...Sentia que o meu sorriso era triste.
- Por ter vindo...por estar aqui...por me ouvir...

quarta-feira, abril 12, 2006

O novo vizinho - Luana

A conversa com a Margarida tinha-me feito perceber que estava a cair num poço de onde me seria muito difícil levantar, mas não impossível. No entanto, eu precisava muito de um incentivo, qualquer coisa que me pudesse ajudar a perceber que também eu mereço ser feliz. Dei por mim a pensar que nunca me tinha sentido verdadeiramente amada...apenas sentia o meu corpo desejado por alguém que eu pensava amar, mas até mesmo o amor pleno era para mim desconhecido, pois nunca existira amor com confiança total, com entrega incondicional, e nunca me sentira respeitada. A minha vida era composta de “nuncas” e “nãos”. Senti-me suja ao conversar com a Margarida e ao contar-lhe algumas das porcarias de que o meu passado é composto. Ao subir para o meu andar imaginei-me criança de novo, quando o mundo dos homens era para mim desconhecido. Tive saudades dos meus pais, do carinho da minha mãe, que eu trocara por uma vida de podridão, e senti as forças faltarem-me. Deixei-me escorregar em frente ao 5º C e fiquei no chão, bem onde eu pertenço. Confesso que tive pena de mim própria e chorei. Foi nessa altura que um rapaz que não conhecia de lado nenhum se aproximou de mim sabe-se lá vindo de onde a oferecer-me ajuda.
A minha primeira reacção foi de raiva. Ele elogiou o meu nome, e eu pensei: “pois, mas Lana é o nome que eu te devia ter dado!”.
- Não, não quero ajuda nenhuma, nem sequer te conheço. Desaparece-me da vista!
- Hey, calma. Não te vou fazer mal... já me apresentei, sou o...
- Para que conste, não me interessa se és novo ou velho no prédio, não me interessa o teu nome e não, não vou aceitar a tua ajuda porque tu não me podes ajudar. Deixa-me!
Ele recuou dois passos e encostou-se à parede. Ficou ali, quieto, calado, a olhar para mim.
- Não tens nada mais interessante para fazer?
- Na verdade não. Gosto de ver uma rapariga a chorar nas escadas, com ar de quem acabou de levar com o Mundo em cima e precisa de alguém que lhe tire esse peso dos ombros, sobretudo quando ela me manda embora. Por isso vou ficar aqui, se não te importas.
- Deves ser completamente doido!
- Sim, completamente. E tu és a pessoa mais normal que conheço, porque choras e dizes que estás bem. Agora que já traçámos os perfis psicológicos um do outro, podemos recomeçar?
- O quê?
- Boa noite, eu sou o Bruno, sou novo cá no prédio. Estou a tentar conhecer os meus vizinhos. E tu és a...?
Comecei-me a rir. Aquele rapaz até estava a ser simpático, e eu estava a ser tão má para ele que me senti envergonhada.
- Ah, ela riu-se! Sinto-me feliz, já fiz alguma coisa de jeito hoje...
- Sou a Luana. Benvindo ao prédio. És sempre assim tão engraçadinho?
- Não. Só quando me sinto desajeitado....
- Pois, também me pareceu... Desculpa o mau feitio...
- Esquece; todos temos dias maus.
- Mudaste-te para cá hoje?
- Sim, pelo menos aqui estou mais perto do trabalho, e gosto desta zona. E tu, moras aqui há muito tempo?
- Alguns meses, só. Bem, espero que te dês bem por aqui. Vou-me embora.
- Já??
- Sim, já. É tarde. Boa noite, Bruno.
- Boa noite... Luana.

sábado, março 11, 2006

O meu Bebé! (3º dto)

"- Olá meu filho!" - custou-me decidir quais as primeiras palavras que lhe diria, fiquei perdida com aqule corpo frágil nos meus braços.
Para o João foi fácil, disse logo: " Eu sou o teu pai!"
A minha criança nasceu. ainda me parece tudo tão irreal! Olhei para os olhos dele e vi a alma que mais amo. Ouvi o choro mais lindo da minha vida e senti uma felicidade arrebatadora.
Não ri o meu filho, o mundo é - lhe estranho. Chora e só acalma quando o aconhego no meu colo ou quando lhe dou de mamar...
Foi lindo ver o João com o nosso filho ao colo. Adorei aquele sorriso aparvalhado de pai babado. A Marisa, olhou para mim e num olhar de cumplicidade feminina concordou comigo: os homens ficam patetas quando são pais.
Eu e o João ficamos longos minutos a olhar para a cara do nosso filho, no fim, lá decidimos o nome que lhe vamos dar: Luís.

Tem dois dias o Luís e já é vedeta. Recebo telefonemas a perguntar por ele, os pais do João já vieram ver o neto... A Luana, veio espreitar... eu estava a dormir, não a recebi... Mas oportunidades não faltarão...
A Marisa tem sido extremamente sensivel e dedicada comigo, está sempre presente, ajudu-me a dar banho ao bebé, eu estava nervosa, tinha medo que ele me escorregasse... O João só dizia: "Cuidado com a cabeça!" e eu ria-me com um nervoso miudinho...

Agora vou aconhegar e ver esta nova vida a crescer... e vou gozar este meu novo papel: sou mãe!

quarta-feira, março 08, 2006

Finalmente Chegou o Dia...

Bato à porta
- Entre - responde o João - está, apenas, encostada.
Empurro devagarinho e sou recebida pelo sebastião com uma lambidela silenciosa. O João está sentado na beira do sofá com a Rita, embrulhada num roupão, acocorada entre as suas pernas com o rosto pousado num dos seus joelhos. Olha na minha direcção e acelera a respiração.
- Mais uma contracção...
- Isso mesmo -encoraja -a o companheiro- inspira profundamente pelo nariz ... sopra... devagarinho pela boca... como se estivesses a enfonar uma vela... outra vez...linda menina!...
- Já está a passar -diz a Rita -Estive dentro da banheira toda a manhã mas as dores começaram a ser mais frequentes e o João achou melhor que eu saísse para desinfectar a banheira ( tal como me tinha dito) e mudar a água e ... lá vem outra...
- Quando essa passar vai ter de se deitar para eu a poder observar, certo? Está a ser muito corajosa...
Examino-a. Oiço o bebé com o meu velho estetoscopio de Pinard, que aos olhos comuns parece mais um funil mas que durante séculos foi o único instrumento de que os Obstetras e parteiras dispunham para ouvir os batimentos dos corações dos fetos.
- Está tudo bem... Quase 8 cm de dilatação. A bolsa de águas ainda não se rompeu. Se quiser pode voltar para dentro da banheira.
O João amparou-a e ajudou-a a meter-se na água tépida. O sebastião deitou-se, num tapete, a um canto. As toalhas estavam colocadas em cima do aquecedor e o material de que iríamos necessitar pousado numa mesinha perto da banheira.
- Isto custa um bocado...mais uma...
- Falta pouco - dizia eu tentando encorajá-la -mais meia dúzia e temos o bebé cá fora!...
Meia hora depois
- Tenho de ir à sanita - disse a Rita, de repente
- Não... deve ser a cabeça do bebé a descer - calcei as luvas e fiz-lhe um toque -a dilatação está completa e o bebé começa a descer. Agora tem de fazer força, com os músculos abdominais, quando sentir as contracções. Esqueça a respiração que fez até agora. Chegou o período expulsivo... lembra-se das aulas de preparação para o parto?... Tem de aproveitar todo o tempo em que dura a contracção para " puxar" - pousei a minha mão esquerda sobre a sua barriga para ter melhor percepção do ínicio da contracção - agora...força....está a começar uma... - e ela fazia força enquanto o João a encorajava.
- Mais um pouco e bebé nasce...força...força - dizia eu- já lhe vejo a cabeça -e num esforço final eis que o bebé nasce. Pego-lhe ao mesmo tempo que as mãos da Rita o puxam para cima do peito com um grande sorriso molhado
- Deus te abençõe, meu filho!
Laqueio o cordão umbilical e faço o gesto de passar a tesoura ao João que, pegando na tesoura, corta o laço físico que uniu estes dois seres nos últimos nove meses...

domingo, março 05, 2006

Começar de novo - Bruno

Após uma longa procura, lá encontrei um andar perto do trabalho.
Foi-me dito que esta zona era pacata, sem grandes algazarras e com um bom ambiente por parte das pessoas que aqui vivem. De facto, é uma zona pacata, não se ouve ou vê vivalma. Estou à porta do prédio, olho para cima e percebo agora que se trata de um edifício recentemente renovado. Bato à porta do prédio e a porteira vem abrir.
- Boa tarde, chamo-me Bruno. Aluguei aqui um andar. É o 5º A.
- Boa tarde, como está? Entre que eu indico-lhe o andar.
Peguei nas malas e lá fomos. A porteira parecia-me ser muito simpática. Começou por me contar que tinham terminado de renovar o prédio há pouco tempo e que alguns dos seus inquilinos pretendiam também fazer algumas alterações nos seus respectivos apartamentos.
- Aqui está; 5º A. Esta é a sua chave, alguma coisa é só pedir.
- Muito obrigado, e um resto de uma boa tarde, para si.
Agarrei a chave, abri a porta e entrei.
Eram já seis da tarde e começava a ficar com fome. Apenas tinha comido algo, antes de sair da casa dos meus padrinhos, os quais aproveitei para visitar e dar as boas novas.
- Vou pedir uma Pizza.
Daí a meia hora tocam à porta. Abri.
- Boa tarde, pediram uma Pizza.
- Sim, quanto é?
- São vinte e dois euros e cinquenta cêntimos.
- Aqui tem, obrigado.
Comi, vi um pouco de televisão e depois fui-me deitar. Descansar da viagem.
Mas, a meio da noite enquanto tentava dormir, e dando voltas e mais voltas na cama, ouço alguém a chorar no corredor. Saio da cama, visto-me e vou ver o que se passa; ao abrir a porta de casa vejo uma mulher, muito bem vestida sentada em frente à porta do 5º C.
- Olá, precisa de ajuda?
- Não, eu estou bem.
- Está a chorar, porquê? Não consegue entrar em casa, é isso. Eu ajudo-a.
- Deixa-me em paz, eu já disse que estou bem, será que és surdo?
- Como se chama? Eu sou o Bruno, sou novo aqui no prédio.
- Chamo-me Luana.
- Luana, que lindo nome, tem a certeza que não quer ajuda?

sábado, março 04, 2006

Contracções (3º DTO)

- Estou ansiosa por lhe ver a cara, por lhe tocar os dedos das mãos, para o cheirar e envolver nos meus braços...
- E estás muito nervosa?
- Não, estou ansiosa...! Já estou a ultimar os preparativos para o nascimento. Falei com a Marisa, que é parteira, para me ajudar na altura do nascimento, assim o João fica mais descansado. É preocupado, apesar de ser uma criança grande.
Mas este peso da barriga arrasa-me, andar com o sebastião pela trela é uma aventura, mas ele tem cuidadinho comigo e passa a vida a lamber-me a cara, e quando estamos deitados no chão , lá em casa, poe o focinho em cima da minha barriga e parece escutar algo que eu não escuto... é lindo...!
- E hoje como te sentes?
- Hum... estou ligeiramente indisposta...um mal-estar que não sei explicar muito bem...
- Chama o João!
- ai... vou telefonar á Marisa. Está mais perto...
...

- Tou, Marisa? preciso de si...

quinta-feira, março 02, 2006

Luana

Hoje estou mais triste do que o habitual. A minha casa é um mar de silêncio onde me sinto naufragar, e mesmo as cores de esperança com que a redecorei parecem não surtir qualquer efeito sobre o meu estado de espírito.
O meu vizinho - o meu amigo, Pedro - ausentou-se. Negócios no estrangeiro durante uns meses, ou uma desculpa para se refugiar no seu mundo. É engraçado, o que a vida faz às pessoas, ou o que as pessoas fazem à sua vida. Eu encontrei no Pedro uma pessoa boa, compreensiva, não só um vizinho mas um amigo; não só um amigo mas alguém que eu achei que poderia salvar-me de mim própria, que eu poderia amar. E achei que ele sentia o mesmo em relação a mim. Passeámos juntos pelo parque, jantámos juntos, conversámos sobre tantas coisas que eu achei que podia confiar plenamente nele e que ele em troca me abria o mais profundo da sua alma. Quando ele se foi embora, deixou-me uma nota por debaixo da porta, e eu li-a e reli-a vezes sem conta, até apagar o perfume dele do papel, até pegar esse perfume aos meus lábios.

Luana,
Vou ausentar-me do país em negócios. Estamos a estudar um projecto complicado
e por isso não sei quanto tempo estarei longe de ti.
Escrever-te-ei assim que chegue e, se possível, todos os dias.
Já tenho saudades tuas, de estar contigo, da energia viva que brota de ti.
Odeio despedidas, e por isso não te disse nada pessoalmente.
Terei tempo para avaliar-me a mim próprio, para avaliar os meus sentimentos,
para reflectir. Não me esqueças e por favor não desanimes.
Lembra-te da jornada de alegria de viver que iniciámos juntos. Tem força por ti,
ou senão para ma dares quando eu voltar. Olha para a lua!
Pedro
Passaram 2 meses e nem uma carta, nem um telefonema, nem um email. Nada. Apercebi-me do meu erro ao pensar que conhecia o Pedro ao tentar localizá-lo através da empresa e descobrir que nem o nome eu sabia. Não podia escrever-lhe, mas pensava nele todos os dias, a todas as horas. As saudades apertaram o meu peito até eu já não conseguir conter a angústia; procurei distrair-me com novos projectos, mas o olhar dele estava em cada local, nas páginas dos livros, no meu pensamento, gravado a ferro na minha alma.
Anteontem, fui passear e entrei num café bastante longe de casa, num bairro que não conhecia, de casas luxuosas de aspecto imponente. Pedi um chocolate quente e sentei-me junto à janela. Atrás de mim, duas mulheres elegantemente vestidas falavam e riam, e embora eu não estivesse a tomar atenção à conversa, não pude deixar de as escutar:
- Então e o teu ex-marido, mudou de vida, foi para um prédio simples e apertado... não sabes nada dele?
- Por amor de Deus, Nina, nem me fales. O Pedro veio ter comigo há duas semanas, canalha! Disse que tinha estado no estrangeiro a fazer uma porcaria qualquer e que tinha falhado o projecto. Disse-me que precisava de mim, implorou-me para que eu voltasse, que uma fulaninha qualquer que mora lá naquele cubículo para onde ele fugiu o tinha ensinado que existem segundas oportunidades. Enfim, um rol de mentiras e disparates. Mandei-o pelo mesmo caminho.
- Sim, foi o melhor que fizeste. Não queiras cair na asneira de pensar que ele se modificou e sofreres tudo outra vez. À segunda só cai quem quer.
- E eu ia pensar isso, Nina? Vi-o há três dias... fez-me impressão, coitadinho. Barba por fazer, camisa rota, bêbedo, completamente bêbedo. Expulso de um casino, como um cão. Ficou caído na estrada, e se chovia!. Arrastou-se até à esquina e agarrou-se a uma rameira, mas olha que nem as putas o querem, porque a fulana deu-lhe um estalo e mandou-o embora. E depois...
Não ouvi mais. Saí dali a correr; as lágrimas distorciam-me a visão. Ele mentira-me! Ele tinha falhado e precisava de mim... e eu não o conseguia encontrar. Ele estava perto, num mundo que eu não compreendia, mas perto, e eu amava-o - tive então a certeza de que o amava -, mas ao mesmo tempo senti-me traída - ele fora ter com a ex-mulher; eu fui uma ajuda com a minha "energia de vida", nada mais do que isso.
Nessa noite, vesti-me a rigor e fui para aquela zona. Perguntei por um casino e indicaram-me um, não muito longe dali. Um pouco mais à frente, prostitutas de rua exibiam os seus corpos e tentavam angariar clientes.
Entrei no casino. Procurei com o olhar da alma, desesperada, mas nem sinal do Pedro. Fiquei ali algumas horas, à espera, sempre à espera. A certa altura, vi um outro bêbedo ser expulso e vi nele a miséria em que caíra o meu amigo. E então chorei. De madrugada, saí do casino e olhei as raparigas à borda da estrada. Talvez ele aparecesse. Fiquei ali. A certa altura, um Mercedes CL65 AMG parou ao pé de mim. O vidro lateral abriu-se e um homem bem vestido, de cabeto negro azeviche e olhos penetrantes, olhou para mim.
- Quanto é?
"...implorou-me para que eu voltasse, que uma fulaninha qualquer que mora lá naquele cubículo para onde ele fugiu o tinha ensinado que existem segundas oportunidades...", "...agarrou-se a uma rameira, mas olha que nem as putas o querem..." "eu fui uma ajuda com a minha "energia de vida", nada mais do que isso"
- Então, não tenho a noite toda. Quanto é?
- Quanto achas que eu valho? - perguntei, entrando no carro.
Anteontem imaginei que estava com o Pedro. Ontem fiz o mesmo. Ignorei o homem que respirava para cima de mim com hálito a Baileys e me bateu, e senti a dor com a mesma intensidade com que sentira a necessidade de guardar qualquer contacto físico com o Pedro para quando tivesse a certeza que ele me amava. Hoje vi a marca arroxeada no rosto, junto ao queixo, e chorei de raiva e de ódio, por ele e por mim própria. "Porque não me vieste salvar??"
Saí do elevador devagar, tentando conter as lágrimas. Era o terceiro dia que voltava ao casino e à esquina. O terceiro dia em que iria vender o meu corpo para me lembrar que eu não tenho o direito de amar.
- O que tem, Luana? O que é que aconteceu?
- Margarida... Isto passa. Não é nada.
- Mas está a chorar. Alguém lhe fez mal?
- Sim... fui eu...
A Margarida olhou-me com ar maternal, abraçou-me e levou-me para a sua casa. Indicou-me o banco da cozinha, colocou uma chávena de chá de menta à minha frente e pegou-me na mão.
- Conte-me.

quarta-feira, março 01, 2006

Hist�rias do pr�dio ao lado

O PARTO DA RITA AVIZINHA-SE

Estava um dia lindo de sol. Embora corresse um aragem desagradável resolvi levar o cão até ao parque ( os animais têm destas necessidades!). Lá andava a Rita com o Sebastião, pela trela. Nem parecia ter frio mostrando a sua grande barriga grávida de final de tempo ( é bonita, esta moda de as grávidas exporem a barriga!).
- Olá Rita, como vai isso? Quantas semanas?
- Olá Marisa! 36 semanas
- Está quase...
- Sim, o meu médico disse-me que não devo chegar às 40 semanas. Andava mortinha por a encontrar... é parteira, não é?
- Sou, embora esteja aposentada.
- Ofereço-lhe um chá naquele café que fica ao pé do nosso prédio, aceita? Preciso muito de falar consigo
- Está bem, vamos - disse eu.
Sentámo-nos num canto abrigado da esplanada (não eram permitidos cães no interior do estabelecimento) com os animais deitados aos nossos pés.
- Eu e o joão - começou a rita depois de pedir o seu chá e uma torrada com muita manteiga - temos pensado e discutido acerca do local e do tipo de parto a que me devo submeter. Ele quer que eu vá para o hospital onde ele trabalha ou para a clínica de uma migo mas eu decidi que quero ter o meu filho em casa
- A sério?
- Não podia estar mais a sério. O único problema é que não sei se consigo fazer tudo sozinha e o João, embora discordando, põe a condição de haver alguém com preparação técnica no momento.
- E foi aí que se lembrou de mim... interessante...
- Desculpe... pareceu-me que, morando lá no prédio, facilitava muito a minha aventura...
- Fascinante... sinto-me lisonjeada!
- Ajuda-me , então? - e um sorriso tímido e ansioso bailava-lhe no rosto bonito
- Sim mas há um problema...não tenho qualquer material.
-Isso não é problema - o sorriso era já aberto - o João tem um colega que trabalha numa clínica e pode pedir o material lá.
-Optimo. Sendo assim podem contar comigo... com uma condição
- Qual? - a ansiedade voltou ao seu rosto
- Tem de me prometer que se alguma coisa me parecer não estar a evoluir dentro da normalidade não se opõe a recorrer ao hospital
- Isso?! Claro. O João estará presente. Tomaremos todos so cuidados para que o meu filho nasça em casa mas nasça muito bem. Obrigada

sexta-feira, fevereiro 24, 2006

Hist�rias do pr�dio ao lado

UM ENCONTRO NA PORTARIA

- Boa tarde D. Margarida!
- Não me chame dona, por favor, Margarida, apenas. Boa tarde Luana ( posso chamá-la assim?!)
- Claro ! Como está a Joaninha?
- Bem. Estamos em fase de matar as saudades depois de tanto tempo separadas.
- Pois, é verdade...não a tenho visto...
- Estive no Egipto, numa expedição científica - um projecto da Universidade...
- Ah! Por isso vi a Joana, algumas vezes, com a D. Marisa...
-Sim, a Marisa fez-me o grande favor de tomar conta da minha filha enquanto estive fora. Elas dão-se muito bem.
- Mudando de assunto... Não tenho visto muitos dos inquilinos do prédio. Até parece que se mudaram.
- Estive a pensar em convocar uma reunião do Condomínio.
- Boa ideia Margarida. Realmente isto está muito parado... pode ser que, depois da remodelação do espaço fisico, as coisas melhorem por aqui.
- A Rita já terá tido o bebé? Não a tenho visto. Nem a ela nem ao João...
_ Não sei... Talvez a D. Marisa saiba de alguma coisa. Vi-as há uns dias a conversar no café, aqui da esquina...

quinta-feira, fevereiro 23, 2006

Redecorações - Luana

Estou feliz!!!
O prédio foi redecorado: paredes pintadas de fresco, com cheiro à Primavera que se aproxima e ao Outono que inicia sempre um ciclo de renovação. Eu própria resolvi redecorar também o meu apartamento e torná-lo mais convidativo e alegre, com um toque de vida e outro de alegria de viver.
Espero que este novo look do prédio contribua para que os meus vizinhos apreciem mais o prédio e voltem a enchê-lo de sorrisos, dúvidas e emoções...
Luana

quarta-feira, fevereiro 22, 2006

A margarida volta ao seu posto

Estive fora com uma equipe de arqueólogos da universidade. Quando a oportunidade surgiu , no final do primeiro período, mem queria acreditar. Primeiro porque eu, sendo uma caloira do primeiro ano, não podia aspirar a tal acontecimento. Segundo, por causa da minha filha. Levá-la comigo estava fora de questão. E, ainda, havia o Jorge...
Mas ás vezes a sorte bate-nos à porta e é necessário reunir a coragem necessária para resolver aceitar os desafios. Os candidatos à expedição desistiram à última da hora porque era no Egipto e o risco de atentados terroristas tinha aumentado consideravelmente nos últimos meses. Depois, embora estivessemos proximos do natal, a minha vizinha, a D. Marisa, ofereceu-se, e até insistiu, para ficar com a Joana enquanto eu estivesse fora. Quanto ao Jorge, mais uma vez me surpreendeu ao apoiar-me incondicionalmente, dizendo que não podia deixar fugir tal oportunidade. E assim, lá fui eu para o Egipto onde passei os últimos 3 meses em escavações no vale dos reis. Não foi exactamente aquilo que eu imaginava depois de ter visto os filmes do Indiana Jones ou lido os livros da Agatha Christie mas foi uma experiência única, debaixo de um sol abrasador e algumas saudades do inverno de Portugal e da minha querida Joaninha.
Voltei. O prédio está desolador. Os inquilinos fecharam as casas e deixaram de dar notícias. Isto não pode continuar assim...temos de fazer uma reunião de condóminos, saber quais os apartamentos que se encontram devolutos e, se for caso disso, ver quais é que temos de despejar... (Parece-me tão drástica esta medida!... ) Fico á espera que digam alguma coisa ou que deixem as chaves na portaria...

segunda-feira, fevereiro 20, 2006

Alguém me ouve??

Caros vizinhos:
Tenho vindo ao Prédio todos os dias, e infelizmente não vejo posts novos por parte de nenhum de vocês... Ainda não postei porque tenho andado à espera que alguém escreva algo passível de continuação, mas parece que o prédio, salvo raras excepções - como é o caso da Júlia (welcome :P) - está abandonado...
Gostaria de saber quem é que, efectivamente, ainda faz parte do prédio e as vossas sugestões para o melhoramento deste blog (o que é que querem introduzir/eliminar, etc). Por favor deixem os vossos comentários ou se quiserem um contacto mais pessoal enviem email para moonlightgirl48@hotmail.com
Fico à espera das vossas respostas, pois desta forma não sei eu própria se vale a pena continuar ou não no prédio.
Um abraço,
Luana

domingo, janeiro 22, 2006

Sou a Júlia, e cheguei aqui um pouco por acaso…


Mudar de escola a meio do ano, onde é que isto me passaria pela cabeça há poucos dias? Bem, sou professora de Português e mudei-me para a escola mais próxima no inicio desta semana. A minha colega que dava cá aulas está grávida, uma gravidez de risco, portanto tem o direito de pedir destacamento para uma zona mais próxima da sua área de residência… Abençoada… Depois de uma substituição de menos de um mês numa escola da linha de Sintra, e quando já achava que ia passar o resto do ano lectivo a trabalhar num supermercado, surgiu uma substituição… e esta até ao fim do ano.
Só é pena ficar longe de casa, mas um horário completo é um grande presente, e dá até para me permitir alguns luxos, como este de alugar um apartamento só para mim.
É um prédio simpático, este onde vim parar. Havia uma vaga no 4º direito, o dono tinha posto há poucos dias um cartaz de “ARRENDA-SE”, e além de não ser muito caro, tem um ar a seu modo acolhedor.
Por isso é que hoje me mudo de armas e bagagens para o meu cantinho… Cruzei-me com uma senhora na entrada, não sei se era a porteira, mas dei-lhe um bom dia de sorriso rasgado, afinal mereço partilhar a minha alegria.
Ainda está tudo espalhado na sala, por cima dos sofás, na mesa da cozinha. Hoje não há paciência para grandes arrumações, só o computador já está montado na secretária do quarto. Quero ir dar uma volta pelas redondezas, mas antes vou imprimir uns anúncios de explicações: “Professora de Português do Ensino Secundário dá explicações, desde o ensino básico à preparação para Exames Nacionais”, ou coisa do género. Pode ser que, colocados nos sítios certos aqui nas redondezas, me ajudem a juntar uns dinheiros extra…
Ah, é bom ter a vida por minha conta. Vou passear por aí, ver se fico a conhecer a vizinhança!