quinta-feira, março 02, 2006

Luana

Hoje estou mais triste do que o habitual. A minha casa é um mar de silêncio onde me sinto naufragar, e mesmo as cores de esperança com que a redecorei parecem não surtir qualquer efeito sobre o meu estado de espírito.
O meu vizinho - o meu amigo, Pedro - ausentou-se. Negócios no estrangeiro durante uns meses, ou uma desculpa para se refugiar no seu mundo. É engraçado, o que a vida faz às pessoas, ou o que as pessoas fazem à sua vida. Eu encontrei no Pedro uma pessoa boa, compreensiva, não só um vizinho mas um amigo; não só um amigo mas alguém que eu achei que poderia salvar-me de mim própria, que eu poderia amar. E achei que ele sentia o mesmo em relação a mim. Passeámos juntos pelo parque, jantámos juntos, conversámos sobre tantas coisas que eu achei que podia confiar plenamente nele e que ele em troca me abria o mais profundo da sua alma. Quando ele se foi embora, deixou-me uma nota por debaixo da porta, e eu li-a e reli-a vezes sem conta, até apagar o perfume dele do papel, até pegar esse perfume aos meus lábios.

Luana,
Vou ausentar-me do país em negócios. Estamos a estudar um projecto complicado
e por isso não sei quanto tempo estarei longe de ti.
Escrever-te-ei assim que chegue e, se possível, todos os dias.
Já tenho saudades tuas, de estar contigo, da energia viva que brota de ti.
Odeio despedidas, e por isso não te disse nada pessoalmente.
Terei tempo para avaliar-me a mim próprio, para avaliar os meus sentimentos,
para reflectir. Não me esqueças e por favor não desanimes.
Lembra-te da jornada de alegria de viver que iniciámos juntos. Tem força por ti,
ou senão para ma dares quando eu voltar. Olha para a lua!
Pedro
Passaram 2 meses e nem uma carta, nem um telefonema, nem um email. Nada. Apercebi-me do meu erro ao pensar que conhecia o Pedro ao tentar localizá-lo através da empresa e descobrir que nem o nome eu sabia. Não podia escrever-lhe, mas pensava nele todos os dias, a todas as horas. As saudades apertaram o meu peito até eu já não conseguir conter a angústia; procurei distrair-me com novos projectos, mas o olhar dele estava em cada local, nas páginas dos livros, no meu pensamento, gravado a ferro na minha alma.
Anteontem, fui passear e entrei num café bastante longe de casa, num bairro que não conhecia, de casas luxuosas de aspecto imponente. Pedi um chocolate quente e sentei-me junto à janela. Atrás de mim, duas mulheres elegantemente vestidas falavam e riam, e embora eu não estivesse a tomar atenção à conversa, não pude deixar de as escutar:
- Então e o teu ex-marido, mudou de vida, foi para um prédio simples e apertado... não sabes nada dele?
- Por amor de Deus, Nina, nem me fales. O Pedro veio ter comigo há duas semanas, canalha! Disse que tinha estado no estrangeiro a fazer uma porcaria qualquer e que tinha falhado o projecto. Disse-me que precisava de mim, implorou-me para que eu voltasse, que uma fulaninha qualquer que mora lá naquele cubículo para onde ele fugiu o tinha ensinado que existem segundas oportunidades. Enfim, um rol de mentiras e disparates. Mandei-o pelo mesmo caminho.
- Sim, foi o melhor que fizeste. Não queiras cair na asneira de pensar que ele se modificou e sofreres tudo outra vez. À segunda só cai quem quer.
- E eu ia pensar isso, Nina? Vi-o há três dias... fez-me impressão, coitadinho. Barba por fazer, camisa rota, bêbedo, completamente bêbedo. Expulso de um casino, como um cão. Ficou caído na estrada, e se chovia!. Arrastou-se até à esquina e agarrou-se a uma rameira, mas olha que nem as putas o querem, porque a fulana deu-lhe um estalo e mandou-o embora. E depois...
Não ouvi mais. Saí dali a correr; as lágrimas distorciam-me a visão. Ele mentira-me! Ele tinha falhado e precisava de mim... e eu não o conseguia encontrar. Ele estava perto, num mundo que eu não compreendia, mas perto, e eu amava-o - tive então a certeza de que o amava -, mas ao mesmo tempo senti-me traída - ele fora ter com a ex-mulher; eu fui uma ajuda com a minha "energia de vida", nada mais do que isso.
Nessa noite, vesti-me a rigor e fui para aquela zona. Perguntei por um casino e indicaram-me um, não muito longe dali. Um pouco mais à frente, prostitutas de rua exibiam os seus corpos e tentavam angariar clientes.
Entrei no casino. Procurei com o olhar da alma, desesperada, mas nem sinal do Pedro. Fiquei ali algumas horas, à espera, sempre à espera. A certa altura, vi um outro bêbedo ser expulso e vi nele a miséria em que caíra o meu amigo. E então chorei. De madrugada, saí do casino e olhei as raparigas à borda da estrada. Talvez ele aparecesse. Fiquei ali. A certa altura, um Mercedes CL65 AMG parou ao pé de mim. O vidro lateral abriu-se e um homem bem vestido, de cabeto negro azeviche e olhos penetrantes, olhou para mim.
- Quanto é?
"...implorou-me para que eu voltasse, que uma fulaninha qualquer que mora lá naquele cubículo para onde ele fugiu o tinha ensinado que existem segundas oportunidades...", "...agarrou-se a uma rameira, mas olha que nem as putas o querem..." "eu fui uma ajuda com a minha "energia de vida", nada mais do que isso"
- Então, não tenho a noite toda. Quanto é?
- Quanto achas que eu valho? - perguntei, entrando no carro.
Anteontem imaginei que estava com o Pedro. Ontem fiz o mesmo. Ignorei o homem que respirava para cima de mim com hálito a Baileys e me bateu, e senti a dor com a mesma intensidade com que sentira a necessidade de guardar qualquer contacto físico com o Pedro para quando tivesse a certeza que ele me amava. Hoje vi a marca arroxeada no rosto, junto ao queixo, e chorei de raiva e de ódio, por ele e por mim própria. "Porque não me vieste salvar??"
Saí do elevador devagar, tentando conter as lágrimas. Era o terceiro dia que voltava ao casino e à esquina. O terceiro dia em que iria vender o meu corpo para me lembrar que eu não tenho o direito de amar.
- O que tem, Luana? O que é que aconteceu?
- Margarida... Isto passa. Não é nada.
- Mas está a chorar. Alguém lhe fez mal?
- Sim... fui eu...
A Margarida olhou-me com ar maternal, abraçou-me e levou-me para a sua casa. Indicou-me o banco da cozinha, colocou uma chávena de chá de menta à minha frente e pegou-me na mão.
- Conte-me.

2 comentários:

mar disse...

Então?!... não precisas de te destruir para o encontrar. E depois... "todos têm direito a uma segunda oportunidade" ... até um bêbado desesperado aprendeu isso

mar

Heavenlight disse...

Acho que preciso de um conselho, de um colinho e de uma boa amiga.
Luana

Aproveito para informar que temos um novo inquilino, o Bruno, que vai começar a participar nas histórias do prédio brevemente. Promete muita interacção e esperemos que dê vida ao prédio!
Heavenlight