sábado, outubro 14, 2006

Conversa

E a casa está mais vazia do que nunca...
No prédio já não me cruzo com ninguém, pareço um fantasma num prédio abandonado à sorte dos que ainda respiram.
Há novos inquilinos. Não tenho opinião sobre eles, não me lembro da cara deles...
E estou a falar consigo D.Margarida, porque é a única a quem ainda veja, a quem ainda dirijo uma palavra por força da presença de todos os dias...
Não olhe para mim assim, eu sei que não é por mal, mas agora volteia ser só eu... Eu a passear um cão pela trela todos os dias em vez de um carrinho...
Já não tenho lágrimas, agora sinto que não sinto. Sou imune á dor.
- E o Dr.João, como está?
Longe... Tão longe como eu. Perdido. Insano. É médico a tempo inteiro agora... Já nem sei se aguento viver aqui com ele, não sei se ele me aguenta.
Sabe o que é sentir o coração a sair boca fora?
-Imagino o que seja. Sei o que é...
O meu já saltou... O João não o quis apanhar... acho que não conseguiu.
-... Não sei o que lhe diga.
Diga-me quando é a próxima reunião de condominio...

1 comentário:

Heavenlight disse...

Nunca somos imunes à dor. Mas é isso que sentimos frequentemente... A resposta é sempre viver o que sentimos, mesmo quando não sabemos o que isso é. Sem fugir, pois estaremos a fugir de nós próprios.