BAHIA E ORIXÁS
Levantei-me. Estava furiosa. Dei meia dúzia de voltas pelo pequeno jardim. Passei por casa da Margarida e bati à porta.
- Calma! Onde é o fogo?!
- Desculpa...bati com muita força?
-Xiiii!... Que é que se passa? Já vi que estás a precisar de um dos meus chás de frutos vermelhos...
Segui-a até à cozinha sentando-me num dos bancos altos - Palerma... maluco... convencido... idiota...mentiroso...covarde...
- A quem é que se referem todos esses mimos?
- Ao asno do Afonso.
- Que é que ele te fez?
- Nada.
- Nada?!- Nunca me contaste o que se passou no Brasil... partiram os dois tão felizes para voltares sozinha e infeliz.
- Nunca te contei porque queria esquecer... Os primeiros tempos foram maravilhosos. Salvador é uma cidade muito bonita e a Bahia não lhe fica a dever nada. As praias, quase desertas, da costa do cacau, de Dendê, dos Coqueiros, dos Descobrimentos, as imensas pequenas ilhas da Baía de Todos os Santos, as cachoeiras da chapada Diamantina, Lençóis... e a cidade de S. Salvador da Bahia?! E o pôr-do-sol junto ao Forte?! Tudo tão bonito, tão perfeito... Passado algum tempo começámos a frequentar o terreiro das mães de santo. O Afonso sentia-se fascinado pela mistura do cristão e do pagão, das cerimónias brancas realizadas pela noite povoada de orixás. A principio íamos os dois mas, como eu sou um bocado descrente e as cerimónias, para mim, não passavam de folclore, o Afonso começou a sentir-se pouco à vontade com a minha presença. Achei melhor deixar de o acompanhar nessa parte do seu mundo. É verdade que nunca me pediu que o fizesse mas também nunca insistiu para que o acompanhasse. Pareceu-me, até, ficar grato quando lhe comuniquei que não voltaria com ele aos rituais. Chegava altas horas e, não raramente, quando eu me estava a levantar para uma qualquer excursão. Deixou de ir comigo. Andava cansado. Necessitava de dormir durante o dia. Certa vez, em que voltei ao apartamento porque a excursão tinha sido cancelada por o mar estar com ondulação não apropriada à pequena embarcação que nos iria levar até ao Morro de S. Paulo, encontrei-o a dormir com duas jovens. Acordou estremunhado quando me sentiu entrar dizendo que não era aquilo que eu estava a pensar. Fiz as malas e voltei nesse mesmo dia para Portugal.
Marisa
- Calma! Onde é o fogo?!
- Desculpa...bati com muita força?
-Xiiii!... Que é que se passa? Já vi que estás a precisar de um dos meus chás de frutos vermelhos...
Segui-a até à cozinha sentando-me num dos bancos altos - Palerma... maluco... convencido... idiota...mentiroso...covarde...
- A quem é que se referem todos esses mimos?
- Ao asno do Afonso.
- Que é que ele te fez?
- Nada.
- Nada?!- Nunca me contaste o que se passou no Brasil... partiram os dois tão felizes para voltares sozinha e infeliz.
- Nunca te contei porque queria esquecer... Os primeiros tempos foram maravilhosos. Salvador é uma cidade muito bonita e a Bahia não lhe fica a dever nada. As praias, quase desertas, da costa do cacau, de Dendê, dos Coqueiros, dos Descobrimentos, as imensas pequenas ilhas da Baía de Todos os Santos, as cachoeiras da chapada Diamantina, Lençóis... e a cidade de S. Salvador da Bahia?! E o pôr-do-sol junto ao Forte?! Tudo tão bonito, tão perfeito... Passado algum tempo começámos a frequentar o terreiro das mães de santo. O Afonso sentia-se fascinado pela mistura do cristão e do pagão, das cerimónias brancas realizadas pela noite povoada de orixás. A principio íamos os dois mas, como eu sou um bocado descrente e as cerimónias, para mim, não passavam de folclore, o Afonso começou a sentir-se pouco à vontade com a minha presença. Achei melhor deixar de o acompanhar nessa parte do seu mundo. É verdade que nunca me pediu que o fizesse mas também nunca insistiu para que o acompanhasse. Pareceu-me, até, ficar grato quando lhe comuniquei que não voltaria com ele aos rituais. Chegava altas horas e, não raramente, quando eu me estava a levantar para uma qualquer excursão. Deixou de ir comigo. Andava cansado. Necessitava de dormir durante o dia. Certa vez, em que voltei ao apartamento porque a excursão tinha sido cancelada por o mar estar com ondulação não apropriada à pequena embarcação que nos iria levar até ao Morro de S. Paulo, encontrei-o a dormir com duas jovens. Acordou estremunhado quando me sentiu entrar dizendo que não era aquilo que eu estava a pensar. Fiz as malas e voltei nesse mesmo dia para Portugal.
Marisa
