quarta-feira, abril 20, 2005

O Porteiro

Abro a porta, ajudo com as compras, chamo os elevadores quando as crianças não chegam ao botão, também faço arranjos na canalização, sou o homem dos sete ofícios. Vivo no rés-do-chão esquerdo e sou o porteiro.
Sou porteiro deste prédio desde que se tornou habitado, e isto já lá vão quase tantos anos como os cabelos que já não tenho. Sou sozinho, nunca casei, mas gostava de o ter feito, e talvez ainda o faça um dia... se a dona Margarida quisesse... A Dona Margarida é a senhora que faz limpezas aqui no prédio. É uma mulher jovem dos seus 30 e poucos anos, tem uma filha, a pequena Joana. Não lhe conheço homem, nunca fala do pai da Joana. É dona de um sorriso triste, mas de uma meiguiçe tal que só me apetece apertar-lhe a mão e prometer-lhe uma data de coisas parvas que agora não vêem a propósito desta conversa!
Bem, como ia dizendo, sou aqui porteiro desde que este prédio abriu as suas portas. Lembro todos os rostos, todas as vozes daqueles que aqui viveram, que vivem ainda, tenho ainda cantinhos na memória para os que vão chegando de novo, lembro com saudade os que já não estão, mesmo os menos simpáticos. Eu cá não sou homem de rancores! Já não tenho idade para isso!
Penduro sempre por baixo do bigode um sorriso, um sorriso que por vezes mais pareçe um daqueles sorrisos de plástico comprados na loja dos chineses para o carnaval. Dou os bons dias, mesmo quando de bom nada têm, boas tardes mesmo que estas sejam menos boas, e boas noites, quando já só apetece é deitar o corpo cansado num bocado de cama para amanhã recomeçar tudo de novo.
No fim do dia, desmaio o corpo em cima do sofá, em frente ao televisor mastigando qualquer pedaço de comida fria que tenha sobrado do almoço e que não tenho paciência para aquecer, e vou de porta em porta entrando em cada uma das casas deste prédio, como se fossem todas salas de uma mesma casa de família. Visito pais, filhos, irmãos e avós, primos e tios, tias e sobrinhos. Cada inquilino um parente mais próximo ou distante e apenas de visita. Tapo as crianças que se destapam no primeiro sono; sento-me à mesa para jantar com aquele casal novo; faço companhia à avozinha que fala com o retrato do marido; bebo um copito e rio com as piadas daqueles dois estudantes novos no prédio. No fim, cansado volto para a minha solidão, levanto o corpo do sofá, desligo o televisor que não vi e abandono-me ao sono numa cama que podia ser menos vazia.
Levanto-me cedo, escovo o bigode, penduro o sorriso e lá vai: Bom dia!

6 comentários:

Alexandra disse...

Boa ideia! Gostei. Vou tentar a ver se sai um inclino para este predio :) Bjo

Marta disse...

Acho que vai sair uma história bem gira. Beijo

Nandita disse...

Há lá melhor porteiro do que aquele que tem jeito para decifrar sentimentos(os seus e os dos outros)?

Bravo!
Se calhar mudo-me para o prédio, se tiver permissão do porteiro ;)

Bj

..::Lissinha::.. disse...

com1porteiro destes,parece1prédio bastante agradável;)

contadordehistorias disse...

O porteiro é uma simpatia.

Nandita disse...

... e modesto....