quinta-feira, abril 28, 2005

A velha professora das traseiras do último andar

Ora, quantos anos vão? Não sei. Sei que quando cá cheguei o prédio cheirava a novo. Quantos anos? Que interessa isso? Já vivi tanto aqui…
Lembro-me bem do dia das mudanças. Era ainda uma mulher cheia de força. Depois de ter ensinado escola na província, vinha enfim para a cidade grande. Dá para imaginar a vontade que eu tinha de começar uma vida nova. Naquele dia, chegavam outras pessoas, cheias de sonhos, como eu… quantas já morreram, quantas vidas novas vieram ocupar os seus lugares.
O porteiro quase não tinha mãos a medir. E eu só lhe vinha dar mais trabalhos. Uma mulher só, com cinco ou seis caixotes de madeira, a abarrotar de livros… as outras malas, consegui pô-las lá em cima sozinha, mas para essas, só mesmo com mão de homem.
Enfim, lá trepámos com todas as coisas escadas acima (naquele tempo…), e instalei-me no último andar, aqui nas traseiras. Antes via o descampado, onde brincavam os filhos do casal do 2º esquerdo e daqueles senhores simpáticos do 6º direito. Agora, os miúdos já são médicos, professores… e da minha janela só vejo mais um prédio, e o restinho de céu que ele não ocupou.
A minha vida aqui na cidade não foi nunca o que eu esperava. O noivo que me tinham prometido, e que mal conheci, saiu do país quando a revolução explodiu. Nunca mais o vi… e achei que os homens, definitivamente, não valiam a pena.
Assim, cá estou, sozinha desde sempre, agora sem crianças à minha volta… entretenho-me por casa, no meu crochet, nos meus discos ( as canções revolucionárias que me afastaram o marido têm sido a minha companhia), e com os meus gatos…
Logo que cheguei, gostei do meu cantinho. Pequeno, sempre foi acolhedor o suficiente para mim e para os bichanos que acolhi por aí. Não incomodam os outros inquilinos, tenho uma velha marquise reservada para eles, e o terraço para se estenderem ao sol.
Uma vez por semana, cumpro religiosamente o meu ritual. Desço à rua e procuro… nos jardins, nos becos, alguns pendurados nos caixotes do lixo, ou à cata de comida nos passeios, há sempre um deles que abdica da sua altivez. É esse, o que vem ter comigo de livre vontade, que eu junto à grande família da marquise. Amanhã volta a ser dia da minha volta… talvez convide alguma das jovens que se têm mudado para cá nos últimos tempos. É que, sabem, a idade vai pesando…
Hoje os meus achaques fazem latejar uma das minhas pernas. Não sei o que fazer, um dia que não possa fazer as minhas coisas, mas não queria deixar o meu cantinho…
Acho que vou levar o jantar aos meus pequenos, já andam por aqui, de volta do sofá, impacientes. Depois tomo o meu chá… pode ser que a água quente sossegue a minha perna, durante o sono.

7 comentários:

isa xana disse...

Senhora professora, o corpo vai pesando mas a alma tem que ser sempre leve, mesmo com o passar do tempo:)

gostei, Nandita... e vou já a correr tentar melhorar o meu texto para estar à altura destes daqui!! ;)

**

contadordehistorias disse...

Sô Professora, esteja à vontade sempre que precisar.

O porteiro

InêsCastro disse...

Vim aqui parar por mero acaso, ainda bem que de vez em quando nos deparamos com acasos.
Muito engraçada a ideia. Parabéns à senhora professora, que história bem contada.

Cassiopeia disse...

Simpatisei muito com a Professora do último andar das traseiras: uma personagem muito bem construída que poderá trazer imensas surpresas.
Continuarei a espreitar pelo buraco da fechadura!
Beijos

Anónimo disse...

já partilhamos uma subida no elevador, vi o pequeno embrulho que trazia no colo e o miar baixinho ...mas abstive-me de fazer qualquer tipo de perguntas...afinal cheguei á tão pouco tempo...sei que nos voltaremos a cruzar...
maria_dosantos

Anónimo disse...

boa tarde!

Posso ajudr com os gatos. Tb tenho duas lá em casa que, como os seus, foram resgatados da rua. Talvez possamos ter longas conversas acerca deles. Por enqt não os vou trazer para cá ( propósito, moro no 11º frente),mais tarde lhe direi porquê.
beijo

mar

Nandita disse...

isa_xana... e entao, o texto, sai ou nao sai???
bj, brigada pela "recepção"