quarta-feira, setembro 07, 2005

Tardes doiradas

Estes dias de sol no fim de Agosto foram divinais. Deambulei pela cidade como se fosse uma velha mendiga, com o saco do pão debaixo do braço (não, não fui para o jardim dar pão aos patos…), e procurei mais bichanos. Custa-me trazê-los para casa, agora. Por um lado, por ver que o espaço para eles estarem à vontade começa a ser pouco… mas também porque o que se passou na aldeia me fez pensar que a vida, e a morte, nos pregam demasiadas partidas… era injusto para mim morrer e deixá-los aqui aprisionados, nas traseiras do ultimo andar.
Por isso tenho saído mais. De chapéu enfiado quase até às orelhas (só se vêm os meus caracóis cinzentos, a escapar por entre as abas), pego nos meus sacos e vou descendo e subindo esta cidade cinzenta. Por mais solarengo que esteja o dia, parece-me sempre que caminho rodeada de mortos-vivos, que passam, se encostam, se desviam… sempre sem palavras!
Esta semana tenho ido para um jardim especial. Fica a dois quarteirões daqui, e meia dúzia de árvores erguem-se dali ao céu, protegendo do sol e da chuva quatro mesas de pedra, um escorrega e um laguinho, onde se ouvem as rãs. O jardim é especial porque é vivo, costumo sentar-me lá para observar os velhotes da batota, e as duas ou três mães que ainda trazem cá os filhos, para brincar descansados.
Há dias vi lá a porteira, a dona Margarida. Estava com bom ar, pele escurecida das férias, e parecia estar muito bem, a lanchar com a pequena Joana. É tão raro ver os meus vizinhos fora do prédio, que quase me parece que as vidas deles se limitam àquelas quatro paredes… é bom saber que eles são reais!
Estava a chegar da minha volta diária, e a pensar que tinha de comprar mais latas de comida de gato para os meus pequenos, quando, ao entrar no elevador, dei de caras com a menina Inês do 13º.
Tenho uma dívida de gratidão com aquela moça… por isso, mal a cumprimentei, acrescentei logo “tem de vir lá atrás qualquer dia, para eu lhe poder oferecer um chá”. “Quando voltei das minhas férias passei lá” disse-me ela, “mas a professora não estava, fiquei preocupada”.
Expliquei-lhe das minhas voltas “obrigatórias” e acrescentei que os gatos tinham saudades. Prometeu-me que, depois de pousar as compras no apartamento, aparecia nas traseiras para o chá.
Despedimo-nos à saída do elevador. A menina Inês é boa rapariga, pensei com os meus botões, e dei por mim a pensar nos novos moradores que tinha visto nos últimos dias… pareciam-me fugidos de um destino qualquer, colados às sombras das escadas… Bem, já tinha assunto para o chá!


Deixem-me entrar, para pôr a água a ferver.

5 comentários:

Pedro Carvalho disse...

Não fales mal de mim durante o cházinho... eheh! Gostei do texto. Não conheço muito bem a personagem, mas vou conhecendo.

Até logo, professora!
Beijo.

MrX disse...

Olá professora! :)
Já tinha passado por esse jardim, num dia que tomei outro caminho para a faculdade. Pode ser que qualquer dia a gente se encontre lá para dois dedos de conversa. Afinal, temnos sempre muito para aprender com uma professora! ;)

Um beijo,
Mário

Heavenlight disse...

Bem, eu adoro estar sozinha num jardim, ouvir o silêncio do mundo e perder-me em pensamentos tão antigos quanto a própria realidade do sonho. Talvez um dia lhe mostre o que escrevo nesses entardeceres, embalada pelas árvores, quando algo me aperta o coração e as páginas se enchem de reflexos da minha alma. Mas primeiro, tenho de a conhecer. Uma professora será com toda a certeza alguém de quem vou gostar muito.
Luana

maresia disse...

colados às sombras das escadas... gosto, gosto muito.

Nandita disse...

A professora agradece com uma respeitosa vénia eheheh