domingo, outubro 09, 2005

Ernesto Saraiva perde-se/renova-se

Noites em Claro

Esta noite voltei a sentir a presença do meu filho nos meus sonhos. Já não durmo há noites. Provavelmente demasiadas. Já não conheço a paz que é suposto um homem poder prever para que lhe seja possível dormir uma noite calma e sossegada. No meu leito só me recordo do do meu filho. O meu filho que jaz noutro sítio mais calmo. No interior de um féretro de pinho. E também me recordo que a mãe dele e o pai dele nunca tiveram muito em comum. Apenas aquele ser que os unia presos a um laço invisível que era a paternidade e a maternidade assumidas como compromisso incontornável. O pai alimentava e cobria o filho. O pai desejava que o filho pudesse crescer sadio e brilhante. O pai perdeu o filho logo desde o princípio. O filho perdeu-e para a imagem da mãe. Da mãe sempre presente. Por isso não foi agora que eu perdi o meu filho. Perdi sim naqueles momentos em que não estive lá para o ver crescer. E sempre que estava lá nunca fazia nada para o recuperar. E como recuperar algo que nunca nos pertenceu? Por isso desisti. O que queria era um filho à imagem do pai. Mas o filho quis ser a sua própria imagem.
No entanto, o pai e a mãe partilham agora algo muito diferente e muito mais intenso. A Dor. Como é que numa questão de segundos o sentido de Dever é substituído por um sentido de Dor? Isso agora intriga-me. E faz-me pensar. E acabou definitivamente e indefinidamente com as minhas noites de sono pesado. E como é que um momento entre o presente e o futuro procura (e consegue) mudar de forma tão radical e oposta o que dois seres humanos possam sentir?

Monólogo perante Alberto

Já fui ter com ele tantas vezes. Com o meu filho. Com aquele que toma agora rescaldo talvez prematuro. “Abriste-me os olhos por momentos”. Disse-lhe. “Nada do que me pudesses ter dito em vida poderia mudar algo em mim. Só isto conseguiu fazer-me pensar. Sabes que primeiro tive raiva de ti. E só depois comecei a ter consciência da situação. Do que me fizeste pensar. Sim. Do que me fazes agora pensar. E eu não tenho medo de morrer. De desaparecer num vácuo. O meu maior receio é perder a vida de vista. Não procurar o que é verdadeiramente importante. Mas foda-se. Descobri que tu eras importante. Que tu foste real. Mas que rio de lamechices. Não é verdade? Deves estar a pensar que sou um merdoso que só diz asneiras e que é mais fácil sentir agora estas coisas. Raios. O que é que te posso dizer mais? Posso dizer-te que morri e que só agora gradualmente volto a respirar com a sensação de que perdi uma perna ou um braço. Posso dizer-te que me arrependo do que não fiz. Posso dizer-te que já se faz tarde. Que morreste. Que não sentes frio. Não sentes calor. Que não podes sentir desejo. Amor. Raiva. Sim. Raiva ou desprezo. Por mim. Posso dizer-te que é inevitável sentir-me assim. Posso dizer-te que vou sentir a falta do que não vivi contigo. Daquilo que perdemos. Do comum que poderíamos possuir e da possibilidade que se esvaiu numa poça atolada de sangue que se foi formando numa estrada mal iluminada. Posso dizer-te adeus. Posso dizer-te que isto não fica por aqui. Que isto vai perseguir-me para o pouco que resta da minha vida. Posso dizer-te só te amei agora. Posso dizer-te Adeus.”

O elo com o passado recente

Estou a viver definitivamente no meu 6º andar Dto. A minha mulher e eu sentimos que depois da morte do Alberto era impossível manter qualquer con-vivência. Mas não vamos divorciar-nos. Separação de facto é um estado superior ao divórcio. E se eu morrer amanhã ela herda o que tenho. E assim ela fica feliz. Ao menos que eu consiga fazer alguém feliz. E hoje trouxe o resto das minhas coisas para cá. Nunca pensei que nesta idade tivesse de enfrentar este género de mudanças. Trinta anos que se quebraram. Cada um no seu lado. Vinte e seis anos. Debaixo da terra. Preciso pensar. Mas antes tive de encontrar algo que seria o meu elo de segurança. Que pudesse suportar as adversidades do tempo. O meu andar. Foi isso que pensei que poderia ser o meu elo. E aqui estou eu. No meu andar agora permanentemente habitado.



10 comentários:

Anónimo disse...

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Anónimo disse...

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Heavenlight disse...

Então benvindo definitivamente. Lamento pelo que aconteceu com o seu filho, com a sua vida, mas só nos calha aquilo que conseguimos carregar... digo-o agora porque, em consideração ao seu pedido, não irei bater à sua porta para lhe perguntar como está. Tudo de bom.
Luana.

BlankPage disse...

Exma Sra
Também não lhe pedi nada..ou pedi?? Acredito que um homem deve saber ultrapassar sozinho os seus problemas. Se eu a mal conheço como é que pensou sequer em que lhe fosse pedir o que quer que seja? Os nosso contacto resumiu-se ao que bem sabe e não quero passar disso mesmo.

Os meus cumprimentos

Ernesto Saraiva

Anónimo disse...

Haja alguém que saiba escrever neste prédio.
Parabêns Senhor Ernesto. Quando se chega à alma de alguém, é sinónimo que fez bem o seu trabalho. :)

Heavenlight disse...

Só porque não gosto de confusões...
... Citando as suas palavras no post de Setembro: "Mas não venhas bater nunca à minha porta. Provavelmente não estarei cá". E aqui está; é este o pedido a que me refiro quando digo: "Em consideração ao seu pedido, não irei bater à sua porta para lhe perguntar como está".
Pedido, exigência, tanto se me faz. Aquilo que importa é que o meu comentário ao seu post não teve qualquer intenção depreciativa, ao passo que não posso dizer o mesmo da sua resposta. Se aquilo que a motivou foi porventura o facto de por minha recriação as nossas personagens terem tido alguma espécie de contacto, relembro que esse é exactamente o propósito deste espaço. Como tal, as nossas personagens poderão voltar a interagir desde que um dos membros deste blog o decidam.
Tenho dito.
A.N.

BlankPage disse...

Não vou negar que na altura não tenha ficado aborrecida simplesmente por uma razão: eu não invadi o espaço de ninguém...e, por isso mesmo, esperaria ter sido eu a poder escolher a altura em que poderia interferir na vida dos personagens que aqui vivem nesta história dentro de uma vontade mútua consolidada, tendo em conta essencialmente uma naturalidade evolutiva dentro da história do prédio. Não gostei, é verdade...e achei que teria sido de bom tom ter falado comigo primeiro.
Eu sei que posso estar a parecer um pouco rude...mas como respeitei (acho eu) o espaço dos outros até agora, gostaria que respeitassem o meu tb o que, não aconteceu naquele caso específico...Tenho dito.

post scriptum - mantenho o que escrevi no coment anterior

Heavenlight disse...

Estamos então esclarecidas.

Just...Blue disse...

Sr Ernesto,

este é par si um momento muito doloroso e a dor por vezes é tao grande que nao nos deixa ver mais alem. Espero que este seja um periodo de reflexao e nao de isolamento. Se precisar de alguem que o escute, de alguem para conversar, pode bater a minha porta. Sei muito bem o que é a solidao!

abraço
Inês

BlankPage disse...

Agradeço-lhe a oferta..e o mesmo se aplika a si..talvez possamos preencher dois espaços vazios causados pelo mesmo faktor: a solidão.

Um bem haja!