domingo, outubro 09, 2005

Luana - Aprendendo a Renascer

Tentei reorganizar a minha vida aos poucos, lentamente, como quem esculpe com precisão os ponteiros do tempo. Empenhei-me na faculdade, comprei algumas coisas para a minha casa e, sempre que posso, brinco com a filha da nossa porteira, D. Margarida, e deixo-me invadir pela inocência da infância.
“…
- Deixas-me pentear a tua boneca?
- Deixo, mas se vamos brincar eu é que sou a mãe, pode ser, senhora?
- Então vou portar-me muito bem para depois tu me leres uma história!
- Ah, não! Então tu lês, está bem, senhora?
…”
Continuo à espera de fazer mais amigos aqui no prédio… gostava de ter uma amiga com quem conversar, sair, distrair-me um pouco, mas cada vizinho meu parece estar embrenhado nos seus próprios problemas e eu tenho medo de fazer uma abordagem em altura menos própria…
Não esqueci o que se passou com o meu vizinho naquela noite. Tive vontade de lhe pedir desculpas vezes sem conta, esperava que me batesse à porta e ficava triste quando ouvia os seus passos afastarem-se após breves momentos de hesitação... como agora. Senti que ele podia ser um amigo, que procurava tão desesperadamente quanto eu uma réstia de luz à qual se agarrar com todas as suas forças. O outro, o Sr. Ernesto, esqueci completamente. Ou talvez não. Se por acaso me cruzo com ele ergo a cabeça e passo sem o olhar; adivinhei-lhe na alma a vontade de não me querer voltar a ver, e eu também não quero. Melhor assim.
Acendo a televisão… nada de jeito. Pego no caderno para escrever qualquer coisa, qualquer coisa que ainda não sei o que vai ser, mas nesse momento ouço a campainha tocar.
Era ele. O meu vizinho. Não disse nada; abraçou-me simplesmente, e esse abraço continha palavras que não se podem escrever e significados que não se traduzem em palavras. Convidou-me para jantar. Descemos as escadas devagarinho e passeámos pelas ruas como dois amigos que se conhecem há muito tempo. Escolhemos um restaurante sossegado e falámos… ele sobre o trabalho, eu sobre a faculdade e a escrita. Depois fomos a um bar. Sentámo-nos na mesa do canto, mais reservada, e a certa altura ele perguntou-me:
- E o que queres fazer agora, Luana? Quais são os teus projectos?
- Quero ser feliz – disse, sorrindo. – Há alturas em que eu continuo a acreditar que isso pode acontecer.
- Como agora? – perguntou ele.
- Sim, exactamente como agora. E tu?
- Eu quero aprender a acreditar como tu.
Nessa altura, passaram por nós dois homens. Um deles, que reconheci perfeitamente, piscou-me o olho e disse para o outro:
- A Lana. Hás-de experimentar a gaja, pá. Aquilo é…
Não ouvi o resto.
- Vamos embora, Pedro? Estou a ficar cansada; já é muito tarde e ainda tenho de estudar.
Ele levantou-se e saímos. Não sei se ele ouviu aquele comentário, ou se percebeu pela semelhança nos nomes e pelo olhar que o homem me lançou. Se ouviu, não comentou, e eu não tive coragem para perguntar.
Entrámos no prédio, subimos as escadas e despedimo-nos com um abraço. Eu queria convidá-lo a entrar, mas tive receio. Por mim. Por ele.
Quando a porta se fechou, os passou dele não se afastaram logo. Senti-me renascer, de certa forma, e percebi que estava a sorrir. Fui até à janela e olhei a lua. Fui invadida por uma sensação de calma que já me era estranha há muito tempo…
Até amanhã, meu amigo”.

14 comentários:

I disse...

Luana é uma mulher forte.

Pedro Carvalho disse...

Luana são duas mulheres fortes.

Beijo, Pedro.

maresia disse...

As garrafas são de oxigénio... O Pedro sofre de asma???

LOL o espírito de maresia veio a terra ilucidar...

Pedro Carvalho disse...

Boa noite!

Quando aceitei as garrafas pensei ser algo alcoólico.
Wrong thought!

Abraços para todos e beijos para alguns.

I disse...

não nos contas mais nada de Luana?

I disse...

duas mulheres, Pedro?Luana são duas mulheres?

Tita - Uma mulher, Um blog, algumas palavras disse...

Obrigada pela visita.
Quanto ao poema da Sophia, é tão lindo, não é maresia?Para mim é quase um lema de vida..adoro-o porque diz muito de mim e tudo o que desejaria na minha partida.
Gosto do seu blog, já o adicionei

negação do óbvio squad disse...

obrigado pelo comentário...estava engraçado...este tem bons conteúdos...parabéns

perola&granito disse...

Maresia enviei-te um email com a resposta à questao colocada no nosso blog, espero que recebas.

Beijinhos

Heavenlight disse...

Para a Tita, a negação do óvio... e pérola e granito:

Os comentários pessoais para a Maresia ou qq outra pessoa deverão ser inseridos nos seus próprios posts ou no seu blog pessoal... só pra evitar confusões... esclarecidos???

maresia disse...

[sorry][no meu dashboard deveria estar claro que na Onda é que deviam deixar comentários para mim]

Heavenlight disse...

Não faz mal :)

perola&granito disse...

Os leilões das nossas peças continuam. Está a decorrer o terceiro. Queres dar uma olhadela?
Beijinhos
Bom fim de semana.

maresia disse...

mas o que é que aconteceu aos moradores deste prédio??? afogaram-se com a maresia?!?!