Recordações
Saí cedo. O dia estava soalheiro. Dirigi-me à paragem do autocarro e procurei a carreira que me levaria para mais perto das minhas recordações. Apetecia-me ver, com os meus olhos, as alterações sofridas, pela passagem dos últimos 20 anos, nos locais que eu tanto tinha amado. Subi e sentei-me junto da janela. Não havia muita gente. Passei à frente do hospital onde iniciei a minha Carreira Profissional. Um raio de sol bateu-me nos olhos obrigando-me a fechá-los. De repente lembrei-me do jovem estudante de mecicina, imberbe e cheio de borbulhas... encontrava-o, constantemente, por todos os locais que eu frequentava no hospital. As minhas colegas costumavam dizer, a brincar, que estava apaixonado por mim. Dizia-se que era um excelente aluno, muito aplicado e devotado ao estudo. De repente desapareceu. Soube, mais tarde, que lhe tinha sido diagnosticada uma esquisofrenia e que fora internado no Júlio de Matos. Que seria feito dele?... Um toque de campaínha fez-me abrir os olhos. O autocarro parou e a porta abriu-se. Desci. O parque, ao cimo da rua, continuava com o seu aspecto descuidado embora as árvores estivessem mais crescidas. A rua estava, impecavelmente, calcetada. O meu velho prédio havia sido demolido e, no seu lugar, existia, agora, um moderno centro comercial. Voltei para o parque onde um homem, ainda jovem, passeava um carrinho de bebé. Sentei-me num banco a ouvir os pássaros e fechei os olhos...
O meu marido havia sido mobilizado para Angola quando eu me encontrava no final da gravidez do meu primeiro filho. Ficou decidido que eu embarcaria depois do bebé nascer. Entretanto, ele procuraria um local onde nos instalar. O tempo foi passando e, ele, mandou dizer que tinha sido colocado no mato pelo que seria melhor esperar pela sua nova colocação numa cidade. Fui ficando, cada vez mais sózinha enquanto esperava notícias.
O meu vizinho do andar de baixo, um pouco mais velho do que eu, era escriturário no mesmo hospital onde eu trabalhava. Fazíamos o percurso juntos. Ás vezes, oferecia-se para passear o bebé para que eu pudesse descansar, dormir ou, apenas, ler. As vizinhas calavam-se quando eu passava...
Certo dia, quando se preparava para descer depois de termos jantado e arrumado a cozinha, os nossos olhares encontraram-se, como tantas vezes acontecia. Desta vez não se afastaram rapidamente mas, ficaram presos. As nossas mãos não se largaram e as nossas bocas procuraram-se. Desapertei-lhe a camisa com tal fúria que alguns botões saltaram pelo ar. Ele, puxou-me a camisola, docemente, para cima. Virou-me de costas para ele. Desapertou-me o soutien e começou a acariciar-me os seios enquanto me beijava os ombros, a nuca...Um formigueiro subia-me pelos pés... um aperto no coração... um nó na garganta...um frio no ventre... Pegou-me ao colo, como se eu fosse uma pena e depositou-me, suavemente, sobre a cama. Despiu-me, lentamente, como se o meu corpo fosse a coisa mais preciosa em que, algum dia, tocara. Os seus lábios desceram até aos meus pés enquanto as suas mão brincavam entre as minhas coxas. Eu já só desejava que me possuisse uma e outra e outra vez...
Ficámos abraçados por muito tempo. Não foram necessárias palavras...ambos sabíamos que tínhamos tido o nosso momento de perdição que, também, seria a nossa redenção.
Quantas vezes desejei descer as escadas? Quantas vezes me apeteceu abrir a porta quando o pressentia parado na soleira? Quantas...?
O meu marido voltou. Partimos para o Porto e, alguns meses depois, nasceu o nosso segundo filho, depois o terceiro e depois o quarto...
