quinta-feira, julho 21, 2005

Quem me ouve?

Dobro a última t-shirt e meto-a dentro da grande mala azul. Deito-me na cama de barriga para cima, contemplando o tecto branco e pensando naquilo que nesta semana passei.
Primeiro o acidente. Um bêbado maluco que conduzia em contra-mão na auto-estrada do Sul e que me fez perder o controle do carro e capotar. Não o apanharam.
Depois, acordei no hospital, com uma perna e um braço lesionados. Fui operado à fractura que tinha no perónio e ando agora de muletas. Parece que, afinal, não fiz luxação no braço. Devo ter dado uma forte pancada, o que me provocou dores fortes, mas não foi necessário imobilizar o braço. E ainda bem, porque senão nem de muletas me poderia deslocar.
Quando soube que a Liliana se encontrava em coma, quase desesperei. Isso, aliado ao facto de nem os pais dela, nem a Madalena me dirigirem a palavra, foi muito doloroso para mim. No entanto, compreendo o que eles sentem. Foi imperdoável o facto de lhes termos mentido. Na altura, não gostei da ideia de mentir aos pais da Liliana. No entanto, não me opus veementemente a essa situação. Acima de tudo queria a Liliana ao meu lado. Agora sei que errei. Sou eu que tenho 19 anos. A Liliana tem 17. Eu devia tê-la obrigado a dizer a verdade aos pais. Mas fui egoísta ao ponto de não me importar verdadeiramente. Felizmente, os meus pais vieram e apoiaram-me, embora censurassem o facto de eu ter feito uma viagem àquela hora da madrugada, depois de uma festa em que, sem dúvida, me tinha cansado bastante. O facto da Madalena, entretanto, me ter perdoado, também me ajudou imenso. Mas, o melhor foi quando falei pela primeira vez com Liliana, depois de ela ter acordado do coma, dois dias depois. Dois dias de espera. Dois dias de desespero. Fiquei mesmo aliviado quando ela me falou e me disse que não se importava com o que tinha acontecido. Que me continuava a amar, como sempre. Entretanto, os pais dela entraram no quarto do hospital e mandaram-me sair. Foi a única vez que me dirigiram a palavra.
Entretanto, ela recuperou de forma quase milagrosa. Falei com a Madalena e ela relatou-me o que os médicos tinham dito. Parece que ela não vai ficar com sequelas do acidente. Já teve alta e está agora em casa, em completo repouso. Os pais dela não me deixam entrar em casa para falar com a Liliana. Contacto com ela por telemóvel e vou conversando com a Madalena. Nestes últimos dias, tem-se tornado numa amiga preciosa.
Os meus pais estão cá na cidade. Disse que eles se podiam ir embora, mas insistiram em ficar. Estão instalados num hotel.
Hoje vou voltar para a minha terra no interior do país. Vou de férias e, só volto em Setembro. Mais de um mês sem ver o meu amor! Não sei se vou aguentar...
Levanto-me da cama e fecho a mala azul. Com a ajuda das muletas, vou até à janela e contemplo a magnífica vista que o 10º andar me proporciona. Sinto uma desesperada necessidade de falar com alguém. Em casa da Liliana não posso entrar. Com quem poderei desabafar?
Pego nas chaves de casa e cambaleio com as muletas até à porta. Entro no elevador. Carrego no botão e começo a descer. Abro a porta, saio e toco à campainha do 3º Direito - o apartamento da Rita e do João.

9 comentários:

Maria disse...

è normal isso tudo acontecer, deixa agora o tempo passar e a liliana ficar boa e aos poucos tudo volta ao normal.
Tens de ter paciencia

As melhoras para os dois.

maresia disse...

19 anos? a vida ainda vai passar muito em ti e nunca saberás se já chegaste à idade em que tomas sempre as decisões correctas. quando os meus filhos (sim, eu tenho 2 filhos numa casa de acolhimento) se queixam da situação em que estão eu faço-os olhar para outros meninos do centro, que nem visitas têm, que nem sabem o que são vínculos afectivos familiares, que nem sabem onde nasceram nem porque nasceram... por muito mal que estejamos, (in)felizmente há sempre alguém que está pior. pensa que a Vida vos deu mais uma oportunidade de aprenderem por linhas tortas alguma coisa positiva, sem vos ter feito passar pela pior das consequências.

BlankPage disse...

Mas a Liliana está bem e é isso que importa...

..::Lissinha::.. disse...

é normal que te sintas culpado...no entanto,os meus pais vão acabar por perdoar-te e tudo ficará bem.acredita ;)
beijo *

Just...Blue disse...

Ainda bem que ja estao ambos em casa e a recuperar! Foste inconsciente em fazer a viagem sem avisarem os pais dela mas agora vais ver que tudo se vai compôr com os pais dela, dá tempo ao tempo, pq agora é justa a reacção deles pq nao tem confiança em ti.

As melhoras para os dois e boas férias para ti!

beijokas

maresia disse...

tens uma mala azul? eu tenho uma vida! http://oazulnasnossasvidas.blogspot.com/

maresia disse...

nasceu mais uma marinheira! irá para o mar em Outubro, no início da época da classe Dart! Ainda não se encontrou colete para prematuras...

mar disse...

A Rita quer falar-nos da sua gravidez. Já escreveu o texto por duas vezes mas ele "desaparece" do blog. Alguém saberá resolver este mistério? Eu confesso que sou uma nabiça/"nabo" nestas coisas de informática. Se aparecer alguem capaz de salvar "a gravidez da rita" que fale...

impressaodigital disse...

sim a unica coisa que consigo escrever aqui são comentários!!! :(