segunda-feira, agosto 29, 2005

A Inquilina do 5º Trás

Entro no prédio e tento ser o mais simpática possível. A porteira olha para mim de uma forma que me assusta, como se tentasse prescrutar todos os meus segredos. Um calafrio percorre-me a espinha.
- Bom dia, o meu nome é Luana, aluguei o 5º trás...
- Ah sim, menina, faça favor de entrar. Tem ali o elevador, que dá sempre jeito, pois ainda tem de subir um bocadinho. Vem sozinha?
- Venho, mas espero fazer amigos brevemente.
- Pois é, andamos sempre a recomeçar, certo? Espero que seja feliz aqui. Se precisar de alguma coisa eu estou sempre aqui.
De repente, uma miudinha abraça-se à mulher.
- É minha filha, a minha Joana – diz a porteira com orgulho. – Já agora, chamo-me Margarida.
A criança era linda, mas tinha um ar assustado, como se alguém lhe tivesse feito mal. Pensei que uma criança daquela idade não deveria ter medo de nada.
- É linda. É a única filha?
Dª Margarida balbuciou um “é...” e retirou-se apressadamente.
- Seja bem-vinda, Dª Luana.
Entrei no elevador e saí no 5º andar. Procurei a minha porta, mas antes disso cruzei-me com uma mulher muito bonita que ia a sair do 5ºC. Dei-lhe as boas tardes mas nem me respondeu. “Convencida; deve ter a mania que é boa. Bem... cecalhar ia apenas com pressa e nem me viu. Vamos tentar fazer as coisas como deve de ser desta vez...”.
Já em casa, depositei as malas no quarto e olhei para o espelho. Via uma rapariga loura, de cabelo ondulado pela cintura e olhos cor de mel. Tinha 24 anos, mas aparentava menos, apesar da pintura sempre presente, como imagem de marca. Sabia que era atraente, mas não gostava de mim. No entanto, sabia que despertava um interesse especial no sexo masculino, e isso fazia-me sentir especial e viva. Não, eu não queria pensar nisso. Recordações vieram-me à mente e fizeram-me chorar. As lágrimas caíam mesmo sem eu querer. Então jurei a mim própria que iria esquecer o passado e recomeçar a minha vida de forma diferente. Limpei os olhos, acendi a televisão (sim, porque eu alugara a casa toda equipada) e deixei-me adormecer.
Horas mais tarde, acordei e senti-me sozinha. Esquecendo tudo o que tinha prometido a mim própria, vesti umas calças de cabedal, justas em cima e evasé nas bainhas, um top branco, arranjei a pintura e saí. No bar mais próximo, vi um homem já quarentão ou mais, bem-parecido, que me olhava de forma insistente. Sentei-me ao lado dele, ao balcão, pedi um tgv e acendi um cigarro. Ele não descolava.
- Estás a olhar para mim?
Ele sorriu, com ar provocador.
- Sozinha?
- Agora não.
- Ah... estou a ver. Queres dançar?
Comecei a dançar à volta dele. Tinha um corpo musculado e moreno, um ar determinado, de feições fortes. Rocei-me. Ele tocou-me na cintura e eu peguei-lhe na mão e coloquei-a no meu peito.
- És uma profissional?
- Não.
- Que fazes?
- Muitas coisas. Não falo sobre mim.
- Tens nome?
- Lana – tirava sempre o “u”.
- Vens?
Beijei-o e deixei-me ir. Ele levou-me no carro por ruas que eu não conhecia. Saímos do carro aos beijos e entrámos num prédio que me pareceu familiar mas, claro, eu estava um pouco embriagada pelo álcool e pelas carícias dele. Subimos ao 6º andar e, na casa dele, onde entrei já parcialmente nua, percorreu todo o meu corpo com os lábios e a língua, deitou-se e esperou que eu retribuísse e depois fodemos até à exaustão uma e outra vez. No final, não me foi pôr a casa, nem eu o esperava. Saí, desci o elevador e já na rua tentei perceber onde estava para encontrar o caminho até casa.
- Oh, não!!! Não pode ser!!!- gritei.
Eu acabara de sair do meu prédio e dera uma ... fantástica ao meu vizinho de cima!!! Sim, o objectivo fora esquecer, mas agora estava presa na minha própria teia. Subi as escadas devagar, tomei um bom banho, e adormeci no escuro, abraçada a mim própria.

5 comentários:

1entre1000's disse...

Bom texto. parabens

maresia disse...

andamos todos à procura de nós, fora de nós!

isa xana disse...

optimo texto.. parabens!

BlankPage disse...
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Nandita disse...

óptimo... e bastante inesperado! Espero que repitas a dose em breve... a dose de texto, dizia eu :P


bj