Bato à porta da margarida. Vou pedir-lhe que me fique com o cão enquanto vou de férias com os meus filhos. Aos anos que não tínhamos férias juntos!... nunca arranjavam tempo para ir connosco. Este ano combinaram e vamos os cinco para S.Salvador da Baía. Organizaram toda a viagem e no fim convidaram-me para ir com eles.
- Entre - respondem de dentro - a porta está aberta.
A margarida está recostada num sofá, de frente para a janela que dá para as traseiras, com os livros espalhados à sua volta.- Estou para aqui sem vontade de fazer nada... - diz ela com um suspiro - o prédio está quase vazio, os inquilinos foram de férias...a Joana está para a colónia de férias e eu... bem tento estudar mas não consigo concentrar-me...
Ouvimos um barulho no pátio e, ela, levantou-se ao mesmo tempo que, também, eu me dirijo para a janela. É o meu cão atrás da gata dela em alegres brincadeiras.
- Como o raio dos bichos se dão bem!- comento. - Vinha pedir-lhe que me tomasse conta dele enquanto vou de férias - e conto-lhes os planos dos meus filhos. Ela acede prontamente.
- Sempre me faz companhia!- suspira - Toma uma chávena de chá gelado, comigo?
Aceito e sigo-a até à cozinha. Sento-me à mesa enquanto ela deita o chá nas canecas e corta o silêncio:
- Ainda há bocado esteve aqui a menina Rita...ela está grávida, sabia?
-Não, não sabia - respondo.
-As porteiras servem para alguma coisa... - diz a Margarida a sorrir ironicamente - Pois é...está grávida e não tem passado lá muito bem. Ia a entrar com o sebastião pela trela. Vinha encostada à parede, cambaleante, branca como a cal, de tal modo que não sei quem é que segurava quem...convidei-a para um chá gelado. Queixou-se de que o João, embora contente com a perspectiva de ser pai, não lhe tem dispensado a atenção de que ela sente necessidade. Está sempre de serviço na Urgência do hospital e nunca pode ter férias neste tempo. Disse-me, também que o Mário, (aquele que anda a estudar medicina e que teve o acidente com a menina Liliana, sabe?) esteve lá em casa a desabafar o seu arrependimento por terem abalado às escondidas para o Algarve...
-Também...que ideia a deles, a de se porem a caminho sem dizerem nada -respondi, para não me manter calada.
-Os pais dela estão furiosos e não os deixam verem-se. Aqui para nós...até parece que a culpa também não foi da filha deles!... Os pais do rapaz lá conseguiram levá-lo para a terra para passar as férias, a ver se ele se acalma. Diz que está muito arrependido.Ele parece muito responsável!...
-Coisas de miúdos - suspiro e, lembro-me do olhar do homem que saiu no 6º andar e sinto-me afogueada.
- Está a sentir-se bem?1...
- Estou bem - fico inibida mas continuo - Quem é o homem que foi, ontem à tarde, para o 6º?
- Deve ser um que é bancário ou qualquer coisa do género. Chama-se Ernesto e não mora cá. Comprou aquele andar para as aventurazinhas...percebe? - notava-se o prazer com que ela lhe desvendava os segredos - Aparece sóou, de vez em quando, acompanhado... sempre de meninas diferentes - diz com um sorriso malicioso - Porque pergunta? Houve algum problema?
- Não, não - coro novamente com a recordação daquele olhar que parecia despir-me, dos pés à cabeça...